A coisa mais errada que se poderia dizer é que Luís Pais Antunes não pode ser
presidente da Autoridade da Concorrência (AdC) porque foi secretário de Estado
nos governos de Durão Barroso e de Santana Lopes.
Embora seja fundamental a
independência partidária do regulador mais importante do País, o facto de alguém
ter ligações políticas não o deve excluir. Não pode ser visto como uma
debilidade fatal.
Uma nódoa. Uma suspeita. O envolvimento político, embora hoje
sob mira permanente - com razão de ser -, pode até ser um fator de valorização
pessoal, cívica e talvez até profissional, não o contrário. Há políticos que não
se serviram da política: pelo contrário, serviram-na.
No entanto, o facto de Pais Antunes ser advogado da PLMJ, sócio deste escritório (recebe lucros) e de este escritório ter em mãos processos ligados às telecomunicações e a centenas de empresas de outras áreas - bancos, por exemplo, que estão sob investigação - levanta muitas dúvidas.
No entanto, o facto de Pais Antunes ser advogado da PLMJ, sócio deste escritório (recebe lucros) e de este escritório ter em mãos processos ligados às telecomunicações e a centenas de empresas de outras áreas - bancos, por exemplo, que estão sob investigação - levanta muitas dúvidas.
Faz sentido que o
presidente da entidade que protege os consumidores, as empresas e a economia
tenha um passado recente - aliás: um presente - ligado a companhias que agora se
propõe fiscalizar? Não criará isso suspeitas - algumas até injustificadas? Não
fere a confiança do mercado? Não o fragiliza a ele e, portanto, a nós? A
resposta é evidente: sim, claro que sim. Surpreende apenas que o Governo tape os
olhos e os ouvidos.
Há um terrível mal lusitano: os bons são sempre os mesmos. Há um cargo para
uma empresa pública, até o de simples assessor? Apesar do desemprego, os
candidatos contam-se pelos dedos. São raríssimas as caras novas. Vivemos em
circuito fechado. Alguns andam por aí há 20, 30 anos, com terríveis fracassos,
falências, disparates às costas, mas mantêm-se na pole position. Dão
entrevistas, mexem os cordelinhos.
Movimentam-se. Não é o caso de Pais Antunes -
que mediou com êxito as últimas negociações da Concertação Social e tem
currículo... de advogado - mas é com esta trupe que agora ele se está a
misturar.
Não haverá ninguém na Autoridade da Concorrência com capacidade para o lugar?
Numa altura destas, em que é cada vez mais importante ter reguladores fortes e
capazes, não faria sentido uma escolha de dentro? Alguém que já estivesse na
Concorrência? É adequado nomear um advogado de negócios - por mais sério que ele
seja? Não se trata de exigir uma pureza laboratorial inexistente e até
indesejável. A ideia é apenas evitar conflitos de interesse.
Aliás: a obrigação
é separar o Estado das empresas, porque é nesse esfrega-esfrega que florescem as
suculentas rendas milionárias e os penosos défices públicos. Há sempre uma mão
que embala o berço... Julguei que o Governo queria acabar com isto. Foi pelo
menos o que ouvi. Vejo que não é bem o caso.
Olha, deve ser esta a famosa mão
invisível.
André Macedo, aqui
