Há livros, ainda que raros, cuja publicação mais se assemelha a um serviço público, tal a missão que prestam na divulgação ou recuperação de obras essenciais.
Nesse rol restrito merece ser incluído o volume que reúne 43 dos mais significativos contos de Guy de Maupassant, o genial autor francês que, após a glória conhecida no final do século XIX, caiu lamentavelmente no esquecimento.
Com a inestimável vantagem de possuir uma tradução assegurada por Pedro Tamen, Contos escolhidos está dividido em três partes - “contos mundanos, amorosos, eróticos e galantes, “contos inquietantes, de horror e de mistério” e “contos exemplares” -, testemunhando a imensa variedade temática de um escritor para quem nada do que é pertença do humano lhe era estranho.
A facilidade com que Maupassant discorria sobre todos os assuntos colou à sua obra uma falsa imagem de superficialidade. Tanto mais errónea porque, embora privilegiasse a realidade externa, sem necessidade de uma abordagem psicológica demasiado profunda, o escritor pretendeu, antes de mais, transmitir o vazio que norteia a vida da maioria dos seres, que vogam ao sabor das aparências.
Esta faceta é por demais evidente no primeiro naipe de narrativas, nas quais sobressai a crítica social, sobretudo à burguesia, a que o próprio autor pertencia. Adúlteras e viciosas, as personagens não serão seguramente modelos de comportamento, mas revelam, em compensação, uma humanidade que as torna quase comoventes aos olhos de quem as lê. E embora os contos versem sobre a degradação humana, nem por isso o sentido de humor está ausente.
No segundo género de contos, o autor de Bel-Ami debruça-se sobre o fantástico e o terror. Escritas no final da vida, quando as visões provocadas pela sífilis já toldavam o discernimento, as narrativas estão impregnadas de horror e macabro, que, presume-se, o próprio autor terá sentido, ou não tivesse estado internado, nos seus derradeiros anos, num hospício, onde atentou contra a própria existência.
A tentativa falhou, mas Guy de Maupassant faleceria pouco tempo depois. Nestes escritos, não faltam mãos decepadas que ganham vida para se vingarem daqueles que foram responsáveis pela sua triste sorte ou crimes inconfessáveis entre familiares e amigos, exprimindo angústias existenciais inultrapassáveis.
Já nos Contos exemplares abundam as análises aos hábitos e comportamentos sociais, como é o caso de Bola de sebo, um dos mais afamados textos do escritor francês.
Pequena parcela das três centenas de textos curtos escritos por Maupassant, Contos Escolhidos é amplo q.b, para que nos apercebamos sem dificuldade do carácter intemporal da sua obra, apesar de a mesma ter sido um produto do tempo em que viveu. Tantos anos depois, lê-la continua a ser essencial.
(Sérgio Almeida)
CONTOS ESCOLHIDOS
Guy de Maupassant
D. Quixote
17,70 euros
Retirada daqui
