terça-feira, 19 de julho de 2011

O LADRÃO DE GASOLINA QUE SÓ QUERIA CHEGAR A CASA

É um grande buraco o que traz este homem a tribunal. Tem cinco filhos - ou talvez só quatro. Como é mecânico, presta-se a consertar o dano. E até oferece garantia.

"Como é que o senhor vai consertar o buraco?"

Nada de risos. Para Carlos Silva, o residente na Cova Funda que ali está na condição de arguido, acusado de furto simples e dano, o assunto é sério.

"Prometo que faço a reparação do depósito e ainda dou garantia de dois anos e meio."

Carlos Silva, cujas mãos parecem um limpa-pára-brisas a esfregar olhos - porque lágrimas nem vê-las - é um ladrão voluntarioso. Ladrão ainda vá que não vá, agora desonesto e mau trabalhador é que não. O trabalho ficará bem feito, senhora doutora, palavra de ladrão prendado.

No dia 8 de Julho, pelas 21h, deslocou-se à Avenida General Roçadas, em Lisboa, um agente da PSP porque ali havia notícia de furto. Ana Paula apanhou Carlos Silva em flagrante e ainda foi a tempo de lhe dar "um chapo". Se é ele que o conta, sem orgulho latino, deve ser verdade. O homem, de 36 anos, pele tão seca como uma passa de uva, usou uma chave de fendas para perfurar o depósito do carro de Ana Paula e colocou um bidão cortado ao meio por baixo, para extrair o combustível. Carlos tinha consigo a chave de uma viatura e no porta-bagagens desta foram encontrados objectos tão estranhos como um saco de plástico, uma mangueira, uma gaveta ou uma rebarbadora.

O arguido assume todos os factos.

"Foi num momento menos bom... Estava com alguma dificuldade em chegar a casa."

"Chegar a casa como?"

"Não tinha dinheiro nem gasolina."

"E porque tinha dois bidões no seu carro?"

"São do meu uso do trabalho. Trabalho numa oficina, que não é minha. É de um senhor que tem um estaleiro de máquinas agrícolas." E imediatamente explica qual a função do bidão maior e do mais pequeno, com rapidez de entendido.

"Usam boiões cortados ao meio?"

"Sim, para quando os carros pingam óleo..."

"Não foi coisa premeditada?"

"Não, não, meritíssima."

A testemunha ofendida, adiante, irá desmenti-lo. Mas já lá vamos.

"E depois, como metia o combustível no seu depósito?"

"Com um bidon mais pequeno."

Dava para tirar um curso sobre os usos que se podem dar a um bidão de plástico.

Mas não é esta acusação que preocupa o senhor Carlos Silva, que até já esteve preso por crimes de outra natureza. Foi um mês muito mau, o carro ficou apreendido na polícia com várias chaves de outros carros de clientes lá dentro, e agora nem dinheirinho nem clientes. Por isso, quando lhe perguntam se quer acrescentar algo em sua defesa, Carlos Silva esfrega o nariz, funga e diz:

"Só pedia que me devolvessem as ferramentas. São o meu ganha-pão."

Estava tudo bem encaminhado para uma sala inteira morrer de pena do homem, até a ofendida ser chamada a testemunhar e estragar o retrato da inocência.

"Ainda não tenho orçamento, mas ele fez o mesmo ao carro da minha irmã e ela pagou 150 euros."

A juíza pergunta se Ana Paula está disposta a desistir da queixa, mas a mulher, que conseguiu reaver o combustível roubado mas perdeu um dia inteiro em tribunal e tem um depósito perfurado, acha que o homem tem de ser castigado.

"Há várias formas de fazer justiça", atira a juíza. "O senhor assumiu os factos, até é mecânico e ofereceu-se para lhe reparar o depósito."

"Vou pedir desculpa ao arguido, mas não vou desistir."

O procurador, mestre na arte da retórica, interfere:

"Para usar as palavras da ofendida, também pediríamos desculpa ao arguido, mas não acreditamos na justificação. O modo de operar é de alguém que tem por hábito fazer estas coisas."

O limpa-pára-lágrimas do senhor Carlos Silva não pára. Antes de sair, com data para voltar e conhecer a sentença, faz saber que tem uma companheira e cinco filhos de outras.

"Uma com 20 anos, uma de 17, um de 12, um de seis."

"Falta um", diz a juíza.

Carlos Silva já não chora, pensa.

"Aaaaaa... A outra não é minha filha, mas considero-me pai."

Pelo menos já pode parar de chorar pelas suas ferramentas. Tem ordem para levantar o carro e recuperar os objectos. Todos menos a chave de fendas e o bidão, perdidos para o Estado. Como todos sabemos, são objectos muito difíceis de substituir. Sem eles, o homem nunca mais reincidirá naquele furto inocente de quem não tem como voltar a casa.

Sílvia Caneco, aqui