A eurodeputada fala da sua infância numa família de camponeses pobres e da luta pessoal para ser mais do que professora primária.
Na juventude, escreveu poemas, publicou alguns no suplemento juvenil do Diário de Lisboa. A aventura literária fica por aí.
Era outra a urgência. Ela conhecia de perto a injustiça da ditadura e a coragem de homens e mulheres que nunca perderam a dignidade. Como a avó, Maria Francisca, camponesa, mãe solteira, a quem o filho do patrão agrário engravidou. A eurodeputada Ilda Figueiredo conta agora algumas dessas suas memórias, numa longa entrevista publicada em livro.
Até aos nove anos, vive na aldeia do Troviscal, Oliveira do Bairro. E não mais terá esquecido esse lugar da infância, nem o "o tempo de morangos". Nem a banda de música que, muito mais tarde, convidaria para tocar no Parlamento Europeu. "Foi um sucesso." Ao ouvir a banda da sua terra em Estrasburgo, a eurodeputada comunista ter-se-á lembrado do antigo maestro, o professor Oliveira, oposicionista da ditadura.
Em Coimbra, certa vez, o maestro resistiu heroicamente, com as armas que tinha, a uma ordem de prisão da PIDE: a banda tocou o hino durante horas, enquanto alguns músicos e acompanhantes correram ao Troviscal dar a notícia aos amigos, "que foram em seu socorro e assim impediram a prisão".
Ilda Figueiredo não assistiu, foi o pai que lhe contou a história do maestro. O pai cuidava dos campos e da vinha Josué Pato. Era este o homem que dava à menina "morangos muito vermelhos e muito doces" e lhe falou, pela primeira vez, de perseguições, das prisões "de quem discordava de Salazar".
Na década de cinquenta, na casa de Josué Pato ("também ele tinha sido incomodado pela PIDE") viu Arlindo Vicente, que pouco depois se apresentava como candidato da oposição à Presidência da República. É por aqui que a futura militante comunista descobre o regime, que aprende a "detestar": porque "maltratava" amigos do pai.
Por esses tempos de menina, descobre também a coragem da avó. Mãe solteira, "trabalhou imenso para criar o filho sozinha", porque o pai recusava-se a assumir a paternidade. Mais tarde, quando quis reconhecer o filho, Maria Francisca recusa - e "ninguém na aldeia lhe conheceu outro homem".
Uma mulher analfabeta, a avó, mas com "enorme sensibilidade humana e poética". Foi com ela, confessa Ilda Figueiredo, que aprendeu "a gostar das flores do campo, a apreciar uma noite de luar na eira de milho, um toque de concertina no largo da aldeia ou o concerto da banda".
Depois, os livros. A descoberta dos livros na biblioteca itinerante da Gulbenkian. "E li de tudo, poesia, história, filosofia, romances." Com essa formação de base, consegue completar os estudos secundários como aluna externa, ao mesmo tempo que tirava o curso de Professora Primária. Para a patroa do pai, camponês pobre, o curso de Professora Primária era suficiente para a filha. Mas já para os seus netos queria estudos universitários. "Ainda hoje me dói, confesso, essa frase que testemunhava a grande injustiça da época."
Não se resignou, nem podia, a neta de Maria Francisca. Enquanto dava aulas, com ajuda de colegas que lhe emprestavam os apontamentos, licenciou-se em Economia. Além da solidariedade dos alunos, registe-se a cumplicidade de um médico, Maurício Queirós: passava o atestado que lhe permitia fazer as provas. A professora primária não podia faltar ao trabalho na escola para fazer exames na Faculdade de Economia do Porto.
Militante do PCP desde Abril de 1974, Ilda Figueiredo considera a construção do comunismo "sonho milenar de sucessivas gerações de homens e mulheres". Ela junta o seu contributo, pequena dádiva para mudar o mundo, com o "orgulho de pertencer à corrente mais progressista da humanidade".
Francisco Mangas, aqui