Por norma, os romances que versam sobre a guerra falham clamorosamente porque adoptam o tom bélico e violento que caracteriza a realidade militar. Como se o desejo de denunciar a brutalidade da guerra tolhesse o discernimento, os escritores enveredam por um estilo panfletário que pouco mais faz do que convencer os que já se encontravam convencidos de antemão.
O norte-americano Don DeLillo triunfa num reduto onde tantos outros falharam, incluindo o seu amigo Paul Auster, porque privilegia a subtileza em detrimento da virulência, a sugestão em vez da propaganda.
Richard Elster, um estratega da Guerra no Iraque que se retira para o deserto farto das mentiras oficiais, é o homem sobre o qual o autor de “Cosmopolis” (distinguido no ano passado com o Prémio PEN/Saul Bellow, de cujo júri fez parte Philip Roth) se ocupa nas páginas de Ponto Ómega.
O exílio voluntário do homem incumbido pelo Governo de branquear a intervenção militar – dotando-a de justificações implausíveis - é interrompido quando Jim Finley, um inseguro cineasta com uma obra escassa, o procura com um objectivo concreto: propor-lhe uma longa entrevista num único plano-sequência na qual recordasse a experiência e expusesse as verdades escondidas por detrás da mentira.
Embora vá adiando sempre a resposta, mais preocupado como estava em esquecer tudo o que o relacionasse com o passado, Elster vai libertando voluntariamente memórias que ajudam a perceber, no seu contexto, a guerra deflagrada há quase uma década e sem fim aparente à vista.
Ainda mais cativante do que os alicerces da narrativa é a escrita de DeLillo, que atinge neste livro um estado de depuração extrema. Um verdadeiro monumento literário. (Sérgio Almeida)
PONTO ÓMEGA
Don DeLillo
Sextante
15,50 euros
Retirada daqui
