Quando o meu filho era pequeno, cortar o cabelo era um ritual de masculinidade; nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a sua juvenil e hirsuta guedelha assim o exigia e impunha.
Espantava-se com aqueles estranhos capacetes espaciais com circunspectas senhoras de cabeças neles enfiadas, de dedos em riste com unhas pintadas de fresco, e eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que o deixavam verdadeiramente intimidado e até estarrecido.
Depois começou a ir ao barbeiro, um verdadeiro gentleman de mãos irrepreensivelmente lavadas onde se deatacavam as unhas dos finos dedos mindinhos, e relógio de ouro no pulso direito. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os dedos duros e frios a endireitarem firmemente as cabeças mais fugidias.
Lembro-me que chegava a casa, com os cabelos caídos a picarem-lhe o pescoço e as costas, e não se cansava de falar do horário e dos diplomas emoldurados, e invariavelmente das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. No entanto, nunca abordou o tema do fatal calendário de “garagem” que em cada ano apresentava sempre uma curvilínea loira invariavelmente bem dotada, nem o das fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex que sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos que davam a imagem de marca do salão.
O seu fascínio, no entanto, eram os pesados cadeirões em ferro pintado, onde se sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas; e o estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Já adolescente, contava que naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic., até surgir a pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?”
Há uma semana o meu filho chegou para férias, e desde logo me referiu que precisava de dar um jeito à melena. Longe de casa, e do salão de arte e beleza que habitualmente frequenta, lá teve que entrar no primeiro que encontrou, um moderníssimo cabeleireiro de homens cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias, onde é figura de destaque o pretensioso recepcionista, com modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney.
Quando chegou a casa lá me contou que sentado na sala de espera, escusou de procurar a literatura apropriada de outros tempos, o Record ou o Correio da Manhã para se entreter, tendo apenas descoberto brochuras de milagrosos produtos capilares. Acto contínuo, logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou dele perguntando-lhe se queria arranjar as unhas… Como é evidente, aguardou a sua vez, pois entratanto a manicura estava de volta de um cliente, talvez um bem sucedido gestor de Impor-Export, que emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”.
Quando, de cabelos lavados chegou às mãos da decotada cabeleireira, o meu filho balbuciou que não queria modernices o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, apareceu-lhe uma jovem estagiária a oferecer uma massagem capilar… e um café. Disse-me que no final diz pagou 25,00€, e que nunca lhe saiu tão cara uma bica…
Uma semana depois, ainda o cabelo, mal cortado, não assentara definitivamente… Disse-me que logo que regressasse a casa, o que tinha a fazer era visitar o seu velho e fiel barbeiro perdendo, é certo, uma manhã de sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em onda média, mas cortando o cabelo como deve ser sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias.
Ah! filho… Sais mesmo à tua mãe! Afinal um conservador é um conservador...
