sábado, 12 de março de 2011

GOVERNO JÁ NÃO TEM CRÉDITO

O novo PEC já é tão afastado do mínimo de socialismo que o governo defendia que já não faz qualquer sentido mantê-lo no poder.

A partir de agora, todos os cenários políticos estão em aberto com este enésimo PEC do governo socialista, com estas medidas de austeridade.

Porque José Sócrates nem se dignou a informar previamente o Presidente da República, em novo episódio de guerra institucional (pelos vistos, nem alguns ministros sabiam, e menos ainda os parceiros sociais, e o primeiro-ministro esteve no dia anterior toda a tarde no parlamento a discutir uma moção de censura sem dizer nada - estamos no domínio da esquizofrenia).

Porque o PSD tem dito e redito que não dará aval a novos cortes - e estes que Teixeira dos Santos ontem anunciou são fortíssimos. O líder do PSD confirmou-o ontem, faltando saber o que pode propor em vez daquilo, porque a nossa soberania está tão limitado como isto.

Porque estas medidas já são tão afastadas do mínimo de ideário socialista que só vagamente se confundem com qualquer coisa que seja defender o Estado social, ou o investimento público, ou as pensões dos idosos (haverá alguém que não se lembre do que disse José Sócrates sobre a proposta de revisão constitucional do PSD ou dos contratos orais?).

Estamos já muito para lá do que qualquer socialista pode defender sozinho num governo que se diz de esquerda. E de um partido que dominou o poder nos últimos 15 anos e que a única coisa que tem a dizer é que a oposição mandou comprar dois submarinos quando esteve no poder.

É claro que uma parte desta austeridade é para europeu ver e para ver se os mercados acalmam. Mas os mercados já nem reagem bem às notícias certas, quanto mais a propostas para os anos que aí virão.

Chegámos a um ponto em que o que o governo defendia e o que o governo aplica é tão distante que já não faz qualquer sentido, porque se perdeu toda a coerência. Já nem os ministros sabem o que defendem, os deputados ainda menos, e os portugueses já não sabem de todo o que esperar.

Mandam os mercados e a senhora Merkel e mais a Comissão Europeia, que de cada vez que o governo fala em mais cortes dizem que são as medidas certas e que não vão ser precisas mais. Até ao round seguinte, onde volta a acontecer aquilo que parece já um circo trágico - mais cortes, mais elogios europeus.

Estamos numa crise económica, estamos numa crise financeira, há uma crise institucional (e pessoal) entre as duas mais importantes figuras do Estado e há uma inevitável crise política que pode ser resolvida com eleições ou com outro governo de maioria alargada.

Neste momento a questão nem é já saber se precisamos de ajuda europeia - já tivemos uma parte da ajuda, através da acção do Banco Central Europeu a comprar dívida soberana e a ajudar os nossos bancos.

Verdadeiramente, o que está em causa já é só se conseguimos evitar o default do Estado, o que aconteceu pela última vez em Portugal em 1891. Ou seja, ter de reestruturar a dívida porque não tem meios para honrar os seus compromissos. É isso que está no nosso horizonte.

O problema já não é de medidas - é alguém ainda acreditar neste governo. O Presidente da República não acredita, os mercados não acreditam, o PSD não acredita, os socialistas cada vez acreditam menos, a esquerda não acredita em nada.

Este impasse só pode ter uma consequência: um novo governo, refrescado e com crédito, para que possa ter crédito. Provavelmente com eleições antecipadas, porque é a forma de a democracia funcionar.
 
Manuel Queiroz, aqui