quinta-feira, 25 de julho de 2013

O VOO DA LIBERDADE

Não sabia porquê, mas a aviação estava-lhe na essência.

Desde que se lembra que o seu sonho era ser piloto de aviões. E voar sempre foi o seu sonho porque, imaginava ele que talvez assim conseguisse ultrapassar os limites do espaço onde nascera, e ver em cada coisa e em cada pessoa, aquilo que a define como especial, como única no mundo; até porque, já tinha ouvido dizer que quem se atreve a sonhar arrisca-se a que algum dos seus sonhos se realize.


E por isso, sempre que podia, alugava uma avioneta e lá ia dar asas à sua imaginação, julgando que nesses momentos é o único dono do mundo.

Perfilada no centro da pista, a passarola voadora viu aproximar-se o experiente piloto, Job de sua graça, o carrasco que a havia alugado para o último voo da sua existência.

Depois de rolar pelo alcatrão pouco mais de uma centena de metros, o bimotor desprendeu-se suavemente do solo e numa questão de segundos já se elevava aos céus e de asas bem abertas, aí estava ele agora nas alturas, a planar.

Job gostava de olhar para as coisas de fora para dentro, do avesso para o direito… de ver o que muitos faziam de conta que não viam; e lá de cima, ao comando do monolugar, onde a vista alcança até mais longe, consegue mesmo ver o que poucos viam… viajando sem se cansar, seja qual for a lonjura.

Seriam duas horas a sobrevoar toda a cidade, que em dia de festa recebia nesse exacto momento a visita de alguém que aí nunca havia estado, e que só aí se tinha deslocado para cumprir a sua obrigação de governante: inaugurar uma avenida.

- Curioso é o mundo visto aqui de cima, como quem paira, matutava ele com os seus botões.... Aqui no céu, não há avenidas nem proibições de estacionamento, não há carros a circular, vagarosos ou impacientes, nem cruzamentos e encruzilhadas, ou semáforos intermitentes… é tudo livre e desimpedido, é tudo liberdade

Ainda inebriado por estes pensamentos, Job depressa desceu à terra ao aperceber-se lá de cima, que poucos pés abaixo de si, havia gente do comércio local que se manifestava contra a falta de estacionamentos na nova avenida acabada de inaugurar. Talvez por isso, aquele dia de luto iria, certamente, ficar na história da cidade. 

Esse, e certamente muitos outros, como quando por aí desfilarem procissões que, ao compasso das filarmónicas, deixem no ar o cheiro a alecrim e rosmaninho, seguidas por intermináveis filas de trânsito; ou até mesmo quando, céleres como raios, por aí passarem esguios e transpirados ciclistas em direcção a uma qualquer meta onde há-de estar alguém a aguardá-los para uma sempre fotogénica entrega de prémios.

Mas lá de cima nem tudo parece perfeito, e por vezes o que se vê nada se coaduna com o que é.

A pista ciclável, por exemplo, parecia-lhe descontínua, até parecia que havia mesmo locais onde nem sequer existia, e que nuns pontos surgia encostada aos muros, a ameaçar a segurança dos utilizadores… a arborização, essa nem sequer conseguia vislumbrar… e os amplos espaços de lazer e os fartos lugares de estacionamento pareciam, afinal, espaços minúsculos e reduzidos… Ah! E lá em cima também não era possível ver os muros de betão de altíssima qualidade construídos nas testeiras de alguns (poucos) dos confinantes; e também nem sequer se conseguia aceder à linha pública de wireless

E tudo isto Job sabia que existia. O que não deixava de ser estranho, porque até já lhe tinham dito que há quem, dos aviões consiga mesmo ver as azeitonas penduradas nas oliveiras…

Mas Job sabia que Bob, o construtor da obra, não era responsável por não se ver lá de cima aquilo que dizem existir, porque afinal o projecto da nova avenida até teria na sua génese a mobilização e o envolvimento efectivo da população local.

O tempo passou veloz, e logo a seguir Job voltou à terra. Depois de desligar os motores, pousou a nuca sobre o já puído mas ainda macio encosto, levou a mão ao peito e sentiu a batida forte, mas compassada do seu coração. E deixou-se estar… e a sonhar… acordado. 

Minutos depois desceu a curta escada, limpou o suor da testa com a costa da mão, o que mal se explicava porque não estava calor e até corria uma aragem; tirou o casaco, abriu ainda outro botão da camisa e sentiu um arrepio causado por uma ponta de frio que vinha do norte. Com uma passada estugada e firme dirigiu-se ao escritório do hangar, bateu à porta, e depois de autorizado entrou e disse:
- Amigo Mário, acabei de tomar uma decisão: quero comprar a sua avioneta, diga-me quanto quer por ela, que eu não discuto o preço.

Depois de subtrair a avioneta à morte certa, Job baptizou-a como ‘Voo da Liberdade’ e pôde, finalmente, realizar o seu sonho de infância, levando a alma para paraísos distantes, de risos contagiantes e alegrias desmedidas.

Inabalável e com o olhar fixo no horizonte, o ressuscitado bimotor prometeu a si próprio que nunca trairia a confiança que Job nele depositara.

Também para Job, o dia fora inesquecível…

Publicado no 'Jornal da Bairrada' de 25 de Julho de 2013.