segunda-feira, 4 de junho de 2012

UMA OFF-SHORE CHAMADA 'BORGES'

O FMI – que decreta dietas assassinas para os irlandeses, gregos e portugueses – é o FMI que em 2011 teve um lucro de 425,9 milhões de euros à conta dos juros dos empréstimos pagos pelos cidadãos gregos e irlandeses.

Em 2012, terá mais lucros com os juros também retirados aos salários dos cidadãos portugueses. A expressão “ajuda financeira” tem conseguido, graças às maravilhas da linguagem, produzir a transmutação de um empréstimo com juros altos numa espécie de banco alimentar dos povos.

Os funcionários do FMI, como se sabe depois do escândalo Lagarde, vivem numa espécie de off-shore institucional celebrada ao mais alto nível. Não pagam impostos e o seu discurso alegadamente moralizador – como tentou fazer a directora-geral do FMI relativamente aos gregos que, sim, têm elevados índices de economia paralela – cai no saco da contradição moral e ética.

O caso de António Borges assume foros de escândalo e mina a credibilidade do governo para o qual foi contratado como uma espécie de ministro em outsourcing. Equiparado a funcionário do FMI, Borges ganhou em 2011 – segundo revelou ontem o Correio da Manhã – 225 mil euros livres de impostos. Passos Coelho chamou-o para tratar da pasta das privatizações, uma tarefa que deveria caber a um ministro. Escapando a esse estatuto, António Borges pode continuar a gozar das regalias das acumulações de funções privadas, lançando um anátema de suspeita sobre um processo já de si polémico o suficiente para precisar de mais minas no campo.

Na semana passada, António Borges insultou todos os portugueses que, ao contrário dele próprio, pagam impostos em Portugal, sustentam os funcionários que o governo decide contratar, e vêem os seus salários reduzidos pelo cumprimento acrítico de um programa da troika que está a promover de forma galopante o desemprego para alegada surpresa do grande técnico Vítor Gaspar.

Ao dizer, em entrevista à Económico TV, que “baixar salários não é uma política, mas uma urgência”, António Borges assumiu uma política em todo o seu esplendor – a política da destruição a curto prazo da economia que o governo diz não querer, embora faça tudo o que está ao seu alcance para a prosseguir. Afinal, se Pedro Passos Coelho não partilhasse a visão de António Borges já o teria demitido de funções. E se temesse os riscos da promiscuidade entre Estado e interesses privados, nunca o teria nomeado em regime de outsourcing.

Ana Sá Lopes, aqui