Estou indignada e tenho esse direito.
Para
começar é um substantivo feminino e, numa democracia, o direito à
indignação é sagrado.
Por isso mesmo, também me deixei invadir por este
sentimento de cólera ou desprezo que entra por nós adentro perante algo
considerado ofensivo e incorrecto.
Tenho andado a coleccionar motivos de indignação. Já coleccionei cromos, moedas, porta-chaves e calendários, mas nos últimos meses tenho andado de olho nos motivos de indignação.
Está na moda e de vez em quando não há nada de mal em
deixar-se ir “na onda”. Ainda por cima tropeçamos neles e
apesar de saírem muitos repetidos não precisamos de gastar fortunas para
completar uma caderneta de muitas páginas.
Indigna-me a pouca vergonha e em muitos casos a ausência completa dela.
Indigna-me a falta de educação ou aquilo que de mau fazemos com a que nos deram.
Indigna-me a falta de respeito e sobretudo o desrespeito.
Indigna-me a incapacidade de avaliação e de análise e a inércia perante o que precisa de ser feito.
Indigna-me
pertencer a um povo e sobretudo a uma geração que faz do lamento canção
e que se ajoelha à facilidade da crítica pela crítica.
Indigna-me que ainda não tenham convidado o Mário para apresentar o Gosto Disto ou o Francisco para as manhãs da TVI.
Indigna-me
que esgotem bilhetes para os festivais de Verão e guarda-sóis nas
praias do sul enquanto me tentam convencer que 50% em fraldas ou
azeitonas pretas descaroçadas não é a mesma coisa que em Peixoto, Alegre
ou Rebelo Pinto.
Indignam-me as emboscadas nas esquinas dos
discursos, à espera de uma vírgula fora do sítio ou de um ponto de
exclamação mal pronunciado.
Indigna-me a lata com que nos tentamos
escapar às responsabilidades pelo estado em que casa está como se
fossemos putos mimados, “Não fui eu! Foi ele que desarrumou esta
porcaria toda sozinho!”
Indigna-me que haja por aí pelo menos uma
geração à rasca para sacar uma nova aplicação que lhe vai permitir, de
forma menos precária , publicar umas fotos à maneira da manif.
Indigna-me
que não se perceba que a culpa não morre solteira, que grão a grão
enche a galinha o papo e que depois da tempestade vem sempre a bonança.
Indigna-me
que se queiram equivalências e Erasmus e acordos de livre circulação e
que depois se ache escandalosa a mobilidade dentro de um rectângulo ou o
atravessar de uma fronteira (que já nem existe) para ir procurar um
presente melhor.
Indigna-me isto tudo e mais meia dúzia de outras
coisas. Indigna-me que se protejam os pobres de espírito enquanto nem
sequer se pára para ver quem precisa de qualquer coisa mesmo ao nosso
lado.
Indigna-me que se peçam direitos e oportunidades e empregos e
casas e apoios e que em troca se ofereça palavras de desânimo e
palavrões de ordem gastos e estéreis.
Indigna-me ter tirado a
porcaria de uma licenciatura numa coisa que pensei que existia e que
servia para qualquer coisa de bom. Com aquilo que vou lendo, ouvindo e
vendo sou eu que não quero emprego na minha área.
Agora que já me
indignei o suficiente por hoje, vou ali ligar a ignição de uma coisa
qualquer que leve a vida para frente faça o mundo girar.
Até já.
Vou ali acreditar mais um bocadinho e já venho.
Cristina Gameiro, no 'Região de Águeda' de 30 de Maio de 2012