sábado, 2 de junho de 2012

INDIG. NAÇÃO.

Estou indignada e tenho esse direito.

Para começar é um substantivo feminino e, numa democracia, o direito à indignação é sagrado.

Por isso mesmo, também me deixei invadir por este sentimento de cólera ou desprezo que entra por nós adentro perante algo considerado ofensivo e incorrecto.



Tenho andado a coleccionar motivos de indignação. Já coleccionei cromos, moedas, porta-chaves e calendários, mas nos últimos meses tenho andado de olho nos motivos de indignação.


Está na moda e de vez em quando não há nada de mal em deixar-se ir “na onda”. Ainda por cima tropeçamos neles e apesar de saírem muitos repetidos não precisamos de gastar fortunas para completar uma caderneta de muitas páginas.

Indigna-me a pouca vergonha e em muitos casos a ausência completa dela.

Indigna-me a falta de educação ou aquilo que de mau fazemos com a que nos deram.

Indigna-me a falta de respeito e sobretudo o desrespeito.

Indigna-me a incapacidade de avaliação e de análise e a inércia perante o que precisa de ser feito.

Indigna-me pertencer a um povo e sobretudo a uma geração que faz do lamento canção e que se ajoelha à facilidade da crítica pela crítica.

Indigna-me que ainda não tenham convidado o Mário para apresentar o Gosto Disto ou o Francisco para as manhãs da TVI.

Indigna-me que esgotem bilhetes para os festivais de Verão e guarda-sóis nas praias do sul enquanto me tentam convencer que 50% em fraldas ou azeitonas pretas descaroçadas não é a mesma coisa que em Peixoto, Alegre ou Rebelo Pinto.

Indignam-me as emboscadas nas esquinas dos discursos, à espera de uma vírgula fora do sítio ou de um ponto de exclamação mal pronunciado.

Indigna-me a lata com que nos tentamos escapar às responsabilidades pelo estado em que casa está como se fossemos putos mimados, “Não fui eu! Foi ele que desarrumou esta porcaria toda sozinho!”

Indigna-me que haja por aí pelo menos uma geração à rasca para sacar uma nova aplicação que lhe vai permitir, de forma menos precária , publicar umas fotos à maneira da manif.

Indigna-me que não se perceba que a culpa não morre solteira, que grão a grão enche a galinha o papo e que depois da tempestade vem sempre a bonança.

Indigna-me que se queiram equivalências e Erasmus e acordos de livre circulação e que depois se ache escandalosa a mobilidade dentro de um rectângulo ou o atravessar de uma fronteira (que já nem existe) para ir procurar um presente melhor.

Indigna-me isto tudo e mais meia dúzia de outras coisas. Indigna-me que se protejam os pobres de espírito enquanto nem sequer se pára para ver quem precisa de qualquer coisa mesmo ao nosso lado.

Indigna-me que se peçam direitos e oportunidades e empregos e casas e apoios e que em troca se ofereça palavras de desânimo e palavrões de ordem gastos e estéreis.

Indigna-me ter tirado a porcaria de uma licenciatura numa coisa que pensei que existia e que servia para qualquer coisa de bom. Com aquilo que vou lendo, ouvindo e vendo sou eu que não quero emprego na minha área.

Agora que já me indignei o suficiente por hoje, vou ali ligar a ignição de uma coisa qualquer que leve a vida para frente faça o mundo girar.

Até já.

Vou ali acreditar mais um bocadinho e já venho.

Cristina Gameiro, no 'Região de Águeda' de 30 de Maio de 2012