No pós-guerra havia um plano para o crescimento da Europa. Agora não há plano nenhum.
Há um livro extraordinário de David Lodge, chamado "Longe do Abrigo", em que Lodge relata a sua Inglaterra da Segunda Guerra Mundial e o imediatamente pós. Lodge era uma criança quando as bombas alemãs caíam sobre Londres e aquele relato na primeira pessoa (muito autobiográfico) recorda-nos que a vida quotidiana dos anos 45-50 não era muito diferente da que se vivia no Portugal da ditadura.
O banho diário, por exemplo, era um acto impensável - agravava as despesas domésticas (água, energia) bastante caras. A comida, mesmo depois da guerra, era racionadíssima. Não havia coisas para "ter", consumir, etc. O vestuário era, quando muito, "lavadinho".
Numas férias, o adolescente Lodge vai passar uns dias à Alemanha, onde a irmã trabalhava para os "americanos" agora ocupantes do país e, de repente, um mundo novo aparece inteirinho à sua frente: os americanos (e a irmã por arrasto) tinham acesso a comida fabulosa, consumiam "coisas" e, hélas, tomavam banho todos os dias. A economia americana estava em franco crescimento - depois do "New Deal" de Roosevelt ter recuperado o país da Grande Depressão - e a europeia agonizava pelo esforço de guerra que obrigava a uma austeridade impossível.
Nos últimos tempos, a ideia da Europa miserável do pós-guerra - que, julgávamos, estaria definitivamente enterrada pelo sucesso económico do "ideal europeu", da União e da moeda única - passou a ser um cenário possível. À desagregação social grega pode suceder a desagregação social portuguesa: só um crente como o governador do Banco de Portugal pode acreditar que um corte no subsídio de Natal (a somar a outros variados cortes) não terá um efeito recessivo na economia.
Mas das economias periférias a crise chegou ontem, com estrondo, às economias grandes - o acosso dos mercados a Espanha e a Itália (cujo resgate, nos moldes utilizados para Atenas e Lisboa, é impossível porque não há dinheiro para o pagar) mostra que há uma guerra sem rosto em curso e que o esforço de guerra, por parte das economias atacadas, está a conduzir a Europa a uma vida como a que tinha David Lodge na Inglaterra do fim dos anos 40.
A diferença entre essa época e a de hoje é que, depois do horror que foi a Segunda Guerra Mundial, a Europa tinha um plano para o crescimento que incluía todos os países, mesmo a Alemanha, culpada da guerra - quando se colocou a questão aos vencedores de proibir a Alemanha de ter indústrias pesadas e de crescer convenientemente, Churchill opôs- -se frontalmente. O crescimento da Alemanha seria o crescimento da Europa. Agora, infelizmente, não há plano nenhum.
Ana Sá Lopes, aqui