Frequentei a mesma pastelaria durante grande parte da minha vida. Foram aproximadamente 18 anos a enfardar mini pizzas, batidos de frutas e húngaros de chocolate.
No final de cada lanche, junto à caixa e ainda engasgado com o valor a pagar, sentia-me invariavelmente como se tivesse sido violado por cinco reclusos de dois metros de altura. Mas as pizzas eram mesmo boas, acreditem.
Deixei de o fazer (de entrar na dita pastelaria) não por estar a pesar 150 quilos e parecer o Eusébio - aquela lontra do Oceanário - mas quando me apercebi que existia uma norma interna relativamente à quantidade de fiambre e queijo vendidas. Sim é verdade, a dita pastelaria acha-se no direito de impor os 100 gramas como o peso mínimo para venda de fiambre ou queijo. Se pedirmos 50 gramas ou qualquer outra quantidade abaixo dos 100, como eu tive a ousadia de fazer, a resposta é um atrapalhado "não estamos autorizados a vender essa quantidade".
Atenção meus amigos: eu não pedi LSD, cocaína, antraz ou plutónio. Pedi 50 gramas de fiambre da perna! Mas o rapaz olhou para mim assustado, como se eu fosse pegar no bocadito de fiambre e mandar o Portugal dos Pequenitos pelos ares. Olhei em volta e procurei aquele indivíduo careca da televisão - o Nuno Graciano - porque me cheirou a um desses programas ranhosos de apanhados mas nada, nem sinal dele. Zero de Graciano. Estava sim um senhor careca de meia-idade no balcão agarrado a uma bola de Berlim mas mais preocupado com a minissaia de uma garota que não devia ter mais do que 12 anos. Pedi para falar com o gerente porque achei a situação demasiado anedótica para ser verdade. Por que razão é que uma pessoa que compra dois papos-secos é obrigada a comprar 100 gramas de fiambre? Para satisfação do proprietário? Para substituir as cortinas da sala? Para ir a uma festa com fiambre nos seios e a tapar o xilofone, como a Lady Gaga?
Mas se eu estava a achar a coisa estúpida pior ficou com a chegada do dito senhor, uma espécie de zombie do fermento. Senti-me como se tivesse estado a snifar dois quilos de farinha de trigo com aquela visão. "Diga" - disse numa voz entre o cavernal e o português. Olhei para trás. Ninguém. Estava mesmo a falar comigo. Confirmou-me esta "ferramenta" a existência da dita norma "informal" relativamente ao fiambre e ao queijo. Perguntei onde podia ler tamanha imbecilidade e foi-me fito que não podia porque era uma coisa da casa e de transmissão oral (portanto mais ou menos como o herpes mas em formato de pão de bico). Fiquei assim a saber que para este senhor as normas são definidas oralmente, pelo que se acordar maldisposto e decidir que todos os clientes devem ser brindados com uma broa de milho em cheio na boca mal pisem o interior do estabelecimento deverão os funcionários agir em conformidade sob pena de sofrerem represálias em caso de incumprimento (provavelmente aspirarem o chão com uma palhinha). Se for decidido que todas as pessoas com mais de 65 anos de idade devem ser barradas em manteiga e aquecidas no forno de lenha com fatias de queijo flamengo coladas nas nádegas assim será. Os mais novos devem ser enfiados dentro de um croissant só com a cabeça de fora, coberta de fios de ovos, um bola de gelado de baunilha na boca e dois morangos nos olhos. E atirar mil-folhas aos carros que passam na Avenida? Que maravilha!
Fiz a reclamação (depois de ouvir o proprietário dizer ao empregado "se ele quiser que use a caneta dele") e ainda tive de explicar à senhora da caixa o que significava uma factura discriminada, isto apesar da dita senhora ser uma das proprietárias e se encontrar ali todos os dias do ano a fazer a mesmíssima coisa (a enganar-se no total). Aparentemente a dita pastelaria cheia de normas orais e informais não sabe preencher uma factura como deve ser. Formalidades. Ou prioridades trocadas. Neste país o que falta é mesmo reclamar. Estamos habituados a ser mal servidos, roubados descaradamente e ainda agradecer no final!
Tiago Mesquita, aqui