Paulo Portas foi num instantinho a Espanha e falou um bocadinho em portunhol.
Vi, na televisão, pressurosa a transmitir o magno acontecimento, o chefe do CDS,
muito ancho, sorrindo a glória do instante. A cena ocorreu na Convenção do
Partido Popular espanhol, e os dirigentes sorriam, não se descortinou se de gozo
se de cortesia. Porém, o que Portas disse não foi de molde a suscitar a alegria
dos distintos.
"Venho trazer-lhes boas notícias de Portugal." O mal-estar foi
nítido. Rajoy olhou, apreensivo, para a senhora a seu lado, e o semblante
turvou-se--lhe, sobretudo quando o orador asseverou que Portugal estava à beira
de ser feliz e muitíssimo livre, com a ida da troika para os limbos.
Quanto a nós. A dívida pública portuguesa aumentou assustadoramente; o
desemprego é medonho; os cortes nos rendimentos das pessoas, com particular
incidência nos reformados, nos pensionistas e nos funcionários, são infames; 140
mil jovens foram, até agora, coagidos a emigrar; a investigação científica está
a esboroar-se, com um ministro esburacado que traiu os testamentos legados; cada
vez há menos estudantes nos cursos superiores; o Serviço Nacional de Saúde, a
jóia da coroa, está a ser atingido de morte; a Justiça é uma amolgadela social e
moral; a Segurança Social mingua a olhos vistos. Ora bem: pode alguém mentir
assim tanto e apregoar virtudes que lhe não cabem?
Sei muito bem que toda esta aldrabice faz parte de uma estratégia ideológica
das direcções políticas ocidentais, articulada na esterilidade de ideias, no
esvaziamento do debate, na manipulação dos valores que conduzem ao desprezo pela
política e à ascensão da insignificância e da futilidade. A política passou a
ser obliterada e substituída por "gestores" e "economistas" que possuem do facto
social uma noção de insensatez. Estou a lembrar-me do banqueiro Ulrich, que,
desaforado, teve o descoco de afirmar, em resposta a uma pergunta sobre se a
população aguentaria tantos sofrimentos: "Ai, aguenta, aguenta!"
O desgosto que nos assola é demasiado. A nossa tristeza torna-se endémica.
Mas sou autor de uma frase muito citada, que continuo a sublinhar: a esperança
tem sempre razão. No entanto é preciso lutar por ela. Pela esperança.
Baotista Bastos, aqui
