quinta-feira, 11 de julho de 2013

O PESCADOR DE PEIXES

Desde que se conhece, que ama a pesca.

No mar ou em rios, riachos ou ribeiros, albufeiras, lagoas ou barragens, pontões ou praias, chova ou faça sol, seja dia de trabalho, fim-de-semana ou dia santo de guarda, todos os dias dedica parte do seu tempo para ir atirar a sediela para a água, à espera que algum peixe abocanhe o isco que, invariavelmente, coloca sempre de forma cuidada no anzol.

Mas é ali, no enfiamento do velho carreiro que calcorreia há quase três quartos de século que Job, assim se chama o velho pescador, se sente como peixe na água; por        que é das bordaduras do parque do Carreiro Velho que este perranense dos quatro costados, conhece cada palmo e cada centímetro daquelas águas turvas e lamacentas.

Job sabe tudo sobre pesca: conhece os peixes como muito poucos e sabe que são uns bichos difíceis de enganar. É por isso que está sempre atento, porque sabe que o isco tem de ser do melhor, que a linha tem de ter a espessura indicada, o anzol o tamanho apropriado e a boia o peso adequado. E também sabe tudo sobre marés e conhece como a palma das suas calejadas mãos os nós a que deve soprar o vento para que a pescaria possa ter sucesso.

E hoje, Job está irreprimivelmente ansioso, porque lá mais para o final da tarde regressará ao ponto onde, década atrás de década tem sido, invariavelmente, o seu pouso preferido.

De galochas calçadas e chapéu na cabeça, rosto enrugado e cabisbaixo como sempre, aí regressará, ao final desta tarde, com o carcomido banquinho numa mão, e a comprida e fina cana e o balde na outra; a tiracolo, um cesto com boias de várias cores, chumbadas de vários pesos e anzóis de vários tamanhos, impecavelmente arrumados numa caixinha de madeira -esse presente de um casamento de há mais de cinquenta anos- e com diversos compartimentos, e que nunca se misturam com a valente e sempre cuidada dose de isco que sempre o acompanha.

Ao canto da boca, uma mortalha, fumegante, a invadir-lhe o gasto rosto, vergastado pelas agruras de uma vida já com quase oito dezenas de anos, mas que não o impede de ostentar o ténue sorriso que sistematicamente lhe achinesa os olhos.

Job sabe o quanto é importante o silêncio e o sossego em redor de quem, como ele, tem como missão olhar com a máxima atenção para as boias que, a qualquer momento, podem desaparecer quando os peixes mordem o isco.

E também sabe que os curiosos, os que nada sabem de pesca nem de peixes, ou os ganapos que se divertem a atirar pedras para a água, não compreendem a enigmática sensação de mistério que os pescadores sentem ao passarem horas a fio, imóveis, de olhar fixo, até sentirem qualquer coisa a remexer-se debaixo de água!

E que, apesar de tudo, nunca desistem mesmo quando, uma vez após outra, içam o anzol, já sem isco, sozinho e a baloiçar ao sabor da brisa que aí, mesmo em pleno estio, sempre se faz sentir.

Job sabe de tudo isto; e por isso tem presente a amargura que sentiu quando uns homens da região de Aveiro para ali demandaram há cerca de dez meses, certamente a mando de alguns outros, para revirarem aquele local do avesso.

Para ali fazerem coisas modernas, chegou ele a ouvir dizer, que iriam transformar o velho e sossegado parque num verdadeiro local de reunião e convívio.

Foram noites e noites de agonia, um sofrimento que o velho pescador enfrentou quase sempre sozinho, porque em algumas vezes, não mais do que quatro, jura ele beijando os indicadores cruzados, teve a visita de uma teimosa e roliça lágrima a salgar-lhe a tisnada pele.

Seria coisa para ser feita em quatro meses, disseram os engravatados visitantes; mas a verdade é que só hoje, quase um ano depois, é que as vedações estão retiradas para receber as individualidades que lá estarão para inaugurar a obra, um parque de merendas com capacidade para multidões de mais de duas centenas de pessoas, um cais de barcos, zona de pesca, zona de churrasco e lava-louça, sanitários e posto de primeiros socorros, parque infantil, palco ao ar livre, terreiro de festas, dois postos de observação da natureza, restaurante-bar, passadiços elevados e até mesmo um amplo parque de estacionamento.

Job está certo que será a última vez que estes pescadores de votos por ali aparecerão. Mas Job, que é homem digno e reconhecido, está-lhes grato: afinal, mesmo tendo sido gasto perto de um milhão de euros, a obra está dada por concluída e é hoje inaugurada sem qualquer zona de sombra.

Dessa forma dificilmente aparecerão visitantes para utilizar o local, o que a muitos parecerá quase uma ignomínia; mas Job bem sabe que não é assim porque à inteligência dos inteligentes nada escapa. E por isso, se o local não tem quaisquer sombras, é porque os pescadores de votos se lembraram dos pescadores de peixes ou, quem sabe, até mesmo só de si…



E desta forma, Job manter-se-á dono e senhor do parque do Carreiro Velho, onde poderá continuar a dedicar-se à pesca sem o incómodo de desconhecidos que nada percebem do assunto.

Nada que numa dúzia de anos não esteja modificado, quando as árvores agora plantadas tiverem fortes troncos a frondosas copas; mas Job acredita que nessa altura já a terra há-se estar a comer-lhe a vaidade que hoje sente.

Convicto que a pequena santa ouviu as suas preces, Job já só pensa no dia em que, com domingueira indumentária, subirá ao altar-mor para deixar uma vela acesa de agradecimento a S. Pedro, o apóstolo padroeiro dos pescadores de peixes.

E nesse dia há-de rezar por tanto tempo, que talvez fique sem tempo para pescar.

Publicado no 'Jornal da Bairrada' de 11 de Julho de 2013.