Desde
que se conhece, que ama a pesca.
No
mar ou em rios, riachos ou ribeiros, albufeiras, lagoas ou barragens, pontões
ou praias, chova ou faça sol, seja dia de trabalho, fim-de-semana ou dia santo
de guarda, todos os dias dedica parte do seu tempo para ir atirar a sediela para
a água, à espera que algum peixe abocanhe o isco que, invariavelmente, coloca
sempre de forma cuidada no anzol.
Mas
é ali, no enfiamento do velho carreiro que calcorreia há quase três quartos de
século que Job, assim se chama o velho pescador, se sente como peixe na água;
por que é das bordaduras do parque
do Carreiro Velho que este perranense dos quatro costados, conhece cada palmo e
cada centímetro daquelas águas turvas e lamacentas.
Job
sabe tudo sobre pesca: conhece os peixes como muito poucos e sabe que são uns
bichos difíceis de enganar. É por isso que está sempre atento, porque sabe que
o isco tem de ser do melhor, que a linha tem de ter a espessura indicada, o anzol
o tamanho apropriado e a boia o peso adequado. E também sabe tudo sobre marés e
conhece como a palma das suas calejadas mãos os nós a que deve soprar o vento
para que a pescaria possa ter sucesso.
E
hoje, Job está irreprimivelmente ansioso, porque lá mais para o final da tarde
regressará ao ponto onde, década atrás de década tem sido, invariavelmente, o
seu pouso preferido.
De
galochas calçadas e chapéu na cabeça, rosto enrugado e cabisbaixo como sempre, aí
regressará, ao final desta tarde, com o carcomido banquinho numa mão, e a
comprida e fina cana e o balde na outra; a tiracolo, um cesto com boias de
várias cores, chumbadas de vários pesos e anzóis de vários tamanhos,
impecavelmente arrumados numa caixinha de madeira -esse presente de um
casamento de há mais de cinquenta anos- e com diversos compartimentos, e que
nunca se misturam com a valente e sempre cuidada dose de isco que sempre o
acompanha.
Ao
canto da boca, uma mortalha, fumegante, a invadir-lhe o gasto rosto, vergastado
pelas agruras de uma vida já com quase oito dezenas de anos, mas que não o
impede de ostentar o ténue sorriso que sistematicamente lhe achinesa os olhos.
Job
sabe o quanto é importante o silêncio e o sossego em redor de quem, como ele,
tem como missão olhar com a máxima atenção para as boias que, a qualquer
momento, podem desaparecer quando os peixes mordem o isco.
E
também sabe que os curiosos, os que nada sabem de pesca nem de peixes, ou os
ganapos que se divertem a atirar pedras para a água, não compreendem a enigmática
sensação de mistério que os pescadores sentem ao passarem horas a fio, imóveis,
de olhar fixo, até sentirem qualquer coisa a remexer-se debaixo de água!
E
que, apesar de tudo, nunca desistem mesmo quando, uma vez após outra, içam o
anzol, já sem isco, sozinho e a baloiçar ao sabor da brisa que aí, mesmo em
pleno estio, sempre se faz sentir.
Job
sabe de tudo isto; e por isso tem presente a amargura que sentiu quando uns
homens da região de Aveiro para ali demandaram há cerca de dez meses,
certamente a mando de alguns outros, para revirarem aquele local do avesso.
Para
ali fazerem coisas modernas, chegou ele a ouvir dizer, que iriam transformar o
velho e sossegado parque num verdadeiro local de reunião e convívio.
Foram
noites e noites de agonia, um sofrimento que o velho pescador enfrentou quase
sempre sozinho, porque em algumas vezes, não mais do que quatro, jura ele beijando
os indicadores cruzados, teve a visita de uma teimosa e roliça lágrima a
salgar-lhe a tisnada pele.
Seria
coisa para ser feita em quatro meses, disseram os engravatados visitantes; mas
a verdade é que só hoje, quase um ano depois, é que as vedações estão retiradas
para receber as individualidades que lá estarão para inaugurar a obra, um
parque de merendas com capacidade para multidões de mais de duas centenas de pessoas,
um cais de barcos, zona de pesca, zona de churrasco e lava-louça, sanitários e
posto de primeiros socorros, parque infantil, palco ao ar livre, terreiro de
festas, dois postos de observação da natureza, restaurante-bar, passadiços
elevados e até mesmo um amplo parque de estacionamento.
Job
está certo que será a última vez que estes pescadores de votos por ali
aparecerão. Mas Job, que é homem digno e reconhecido, está-lhes grato: afinal,
mesmo tendo sido gasto perto de um milhão de euros, a obra está dada por
concluída e é hoje inaugurada sem qualquer zona de sombra.
Dessa
forma dificilmente aparecerão visitantes para utilizar o local, o que a muitos
parecerá quase uma ignomínia; mas Job bem sabe que não é assim porque à
inteligência dos inteligentes nada escapa. E por isso, se o local não tem
quaisquer sombras, é porque os pescadores de votos se lembraram dos pescadores
de peixes ou, quem sabe, até mesmo só de si…
E desta
forma, Job manter-se-á dono e senhor do parque do Carreiro Velho, onde poderá
continuar a dedicar-se à pesca sem o incómodo de desconhecidos que nada
percebem do assunto.
Nada
que numa dúzia de anos não esteja modificado, quando as árvores agora plantadas
tiverem fortes troncos a frondosas copas; mas Job acredita que nessa altura já a
terra há-se estar a comer-lhe a vaidade que hoje sente.
Convicto
que a pequena santa ouviu as suas preces, Job já só pensa no dia em que, com
domingueira indumentária, subirá ao altar-mor para deixar uma vela acesa de
agradecimento a S. Pedro, o apóstolo padroeiro dos pescadores
de peixes.
E nesse dia há-de rezar por tanto
tempo, que talvez fique sem tempo para pescar.
Publicado no 'Jornal da Bairrada' de 11 de Julho de 2013.