domingo, 28 de julho de 2013

O DIA DE TODOS OS PRODÍGIOS

Por incrível que pareça, Pedro Passos Coelho não pediu a demissão, não foi demitido e continua à frente de um governo miraculosamente ressuscitado no passado domingo, por sortilégio do Presidente da República, três semanas depois da emissão da respetiva certidão de óbito.

Em menos de 24 horas, Passos Coelho perdia o n.º 2 e o n.º 3 do seu Governo. O primeiro - verdadeiro mentor da governação - confessou o fracasso do cumprimento das metas do "memorando", fim supremo da governação, conforme testamento político que o próprio se encarregou de lavrar. O segundo - garante da maioria parlamentar - tentou, em desespero, escapar ao naufrágio iminente que todos aguardavam. 


Como se isto não fosse suficiente para que Passos Coelho apresentasse a demissão, na semana seguinte, o presidente iria ignorar, por longos dias, a "remodelação" proposta pelo ainda primeiro-ministro, para depois antecipar a sua disponibilidade para o demitir e convocar eleições no ano seguinte, logo que fosse aprovado o orçamento e concluído o programa de resgate. Nem assim!

Passos Coelho não cedeu e agarrou-se ao poder com o desespero do náufrago, insensível aos sucessivos vexames, indiferente aos padrões tradicionais de decência, às perceções correntes de dignidade das funções públicas, de ética política, de "sentido de Estado" e outras ponderações, enfim, que provavelmente despreza como futilidades e arcaísmos inúteis. 

Assim trocou as voltas a Paulo Portas, que não podia rejeitar o que agora lhe era oferecido... muito mais do que alguma vez esperara ou publicamente exigira! E devolveu todas as humilhações sofridas ao presidente que, subestimando a sua teimosia, não suscitou no PSD a vaga de indignação que derrubasse a atual liderança e abrisse os horizontes a novos planos e estratégias. António José Seguro, precavido, não dedicou mais de seis dias à aventura extemporânea do chamado "compromisso de salvação nacional" que a extrema-esquerda, com excessiva ligeireza, logo descartou.

A figura venerável do dr. Rui Chancerelle de Machete não chegará para emprestar o mínimo de crédito e decência ao "novo ciclo" agora encetado. A denúncia da "podridão dos hábitos políticos", a propósito da evocação da sua passagem pela Sociedade Lusa de Negócios, não é um augúrio feliz. Este é um Governo prodigiosamente ressuscitado pela conjugação improvável de uma infinita irresponsabilidade com a mais cega obstinação e cândida desfaçatez. 

Ainda que o desvelo da troika por este seu filho dileto possa justificar alguma benevolência na avaliação dos incumprimentos acumulados no programa de ajustamento, o preço da recusa presidencial de convocar imediatamente eleições legislativas antecipadas irá ser pago com pesados juros pelos cidadãos - os trabalhadores empobrecidos, os funcionários públicos precarizados, os desempregados que desesperam, os empresários que desistem, os jovens que emigram.

O que promete, então, o "novo ciclo"? A mera continuidade das políticas anteriores mais os remendos exigidos pelos erros e perversidades da "terapia de choque" com que o Governo prometia "salvar" o país.

As proezas inaugurais do governo mínimo, das viagens em classe turística e da extinção dos governadores civis, sem mais consequências, passaram ao anedotário nacional. Além do programa de "privatizações" no setor público empresarial, dos cortes extraordinários na despesa, do despedimento dos funcionários públicos e dos aumentos dos impostos, como se inscreveu a reforma do Estado no plano da ação governativa? Um Governo seriamente empenhado em eliminar desperdícios e reduzir custos a título permanente teria começado justamente por aqui, pelas questões estruturais! 

Não há reforma das instituições, nem racionalização dos serviços, nem saneamento financeiro sem a mudança do sistema político e a reforma da administração territorial. Há precisamente duas semanas escrevi nesta coluna que o "pacto" pecou por tardio ou prematuro e "só a iminência de eleições legislativas lhe daria agora um sentido útil (...) porque é do pluralismo político e do debate democrático que oportunamente há de surgir a resposta aos problemas do país".

Pedro Bacelar de Vasconcelos, aqui