Nesta semana, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida pronunciou-se no sentido de que o Estado português pode e deve racionar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar o cancro, a sida e a artrite reumatoide.
Uma vida não tem preço. Nem qualquer pedaço dela.
Como pode um homem, médico, chegar à conclusão que há um valor justo para um mês de vida... todos já tivemos muitos meses maus, anos até... eu também, poderiam ter sido passados por cima, mas, ainda assim, integram a minha história, fazem parte do meu caminho até aqui... Mas, ainda assim, amputar passados é diferente de abortar futuros.
Matar de forma absoluta o amanhã de alguém é crime. Chama-se homicídio. Trate-se de um embrião bebé que se desenvolve à velocidade da vida ou um doente em coma, com cancro em fase terminal... é sempre homicídio. Sempre. Porque morre alguém, por vontade de outrem.
Na vida, há momentos, um olhar, um sorriso, um beijo, que duram segundos mas que valem (mais que) uma vida...
A vida é essencialmente futuro. Ainda que numa cama de hospital, em lágrimas, num mar de sofrimento... a Vida também é isso. Não é só alegria, também é dor.
Será que os médicos deixarão de fazer juramento de Hipócrates para, hipocritamente, jurar defender com aprumo, brio, disciplina e coragem militares, o Orçamento? Na conclusão 6 do parecer o Conselho refere que os médicos deviam obrigatoriamente ter mais formação ética para tomarem decisões mais justas e mais, imagine-se, responsáveis!
Argumentarão que não há recursos e perguntarão quem escolheria eu de entre dois doentes com diagnósticos e prognósticos diferentes... Mas a falta de recursos deve-se não a quem está doente, mas a quem os andou a desperdiçar. Em casa onde não há razão, todos ralham, mas nunca há pão. Talvez porque alguém o come todo assim que chega... O problema não é o custo das terapias mas o dinheiro que era suposto existir para as pagar e que foi canalisado para outras vi(d)as.
Haverá, por esta altura uma multidão de gente à procura de uma fórmula matemática que decida, ela própria, o “sim” ou “não” em relação ao futuro dos doentes em avançado estado de despesa pública... no entanto, parecia-me bem mais humano que, em casos extremos, fosse alguém a fazê-lo, alguém com valores a assumi-lo, mas nunca um algoritmo que se aplica de forma impessoal... e atrás do qual, depois, muitos se esconderão.
Em breve, a capacidade do Estado pagar reformas acabará... o que argumentarão, perante esse cenário, os então estes senhores das Ciências da (dí)Vida? Talvez alguém ligado a um qualquer Conselho de Ética (!) venha dizer que a vida para além dos 70 anos já não é vida, que a qualidade de vida dos mais novos é posta em causa por esses egoístas que já viveram mais do que o suficiente... ou talvez que se devia ter investido mais em aborto... ou outra enormidade que não me é dado imaginar...
Está completamente errado quem contribui com a sua sabedoria sobre Ética e sobre a Vida para a aplicação de medidas políticas inumanas, num país que pode ter pouco dinheiro, mas que não deixa por isso de ter muito valor. Apesar dos concidadãos que trocam vidas por dinheiro.
Resta um apelo: que se perdoem estes senhores da Ética pois, seguramente, não sabem o que dizem nem o que fazem... Na melhor das hipótese, porque talvez nunca tenham conseguido um olhar que de um sorriso se fez beijo... mas, sabem, nunca é tarde! E vale sempre muito mais que 50.000€ – asseguro eu.
José Luís Nunes Martins, aqui
