Minha querida Joana, bonita a carta que me enviaste.
Obrigado.
Há muito que não
recebia cartas, exceto as do fisco e da brigada de trânsito. Multas, dívidas,
taxa dos esgotos, o IMI, coisas dessas a que agora passei a ligar mais; coisas
que me atrapalham e apanham desprevenido. Quando pego nos envelopes sei que
nunca são boas notícias. Abro-os e fico em sentido.
Perguntas-me o que acho do Gaspar. Já sabes o que penso: os ministros das
Finanças chegam a galope e depois passam de cavalo a burro num instante. O
Gaspar é igual. Às vezes lembra-me o Cunhal, deve ser das sobrancelhas felpudas.
Tudo nele tem um ar inevitável, até o Orçamento que apresentou. Como vês, já
estou rendido: ele apresentou o único Orçamento que podia apresentar para fazer
de conta que estamos a cumprir à risca o estúpido memorando e que vamos atingir
as metas. O jogo é esse: fazer de conta. Ele sabe que tudo isto é impossível,
uma perigosa mentira, mas vive naquela bolha só dele e da troika. Jura até que o
consumo vai cair mas que a receita do IVA vai subir. Como o explica? Não
interessa: é tudo um faz de conta. Temos este papel de pobrezinhos cumpridores a
desempenhar e Gaspar faz todo o teatro possível no Excel. São anos e anos de
estudos. Sim, tens razão: não há alternativa porque a dívida pública é
monstruosa. Se nos tirassem uma parte dela e nos aliviassem os juros que pagamos
talvez houvesse uma saída... assim, nada feito, apesar de Gaspar insistir que o
caminho é por aqui.
Sabes, ele disse no Parlamento que tinha exigido ao FMI uma clarificação
sobre aquela história de os efeitos recessivos da austeridade terem sido mal
calculados. É obra este Gaspar: faz muito bem em perguntar, mas espanta-me que
só agora se tenha interrogado e logo sobre uma coisa que até nos podia ser
favorável. Não te parece esquisito? Pronto, tens razão: sem o euro seria muito
pior. Já estou a ver os jornais - preço do frango triplica, mortadela é um luxo
- e isso, desculpa-me, até me faz sorrir. Isso e a visita que Merkel nos fará em
novembro. Disse um deputado que seria uma espécie de tour ao Afeganistão: ela
vai entrar e sair do País a correr, como fez na Grécia. Eu só espero que faça
sol nesse dia. Não gostaria de a desapontar em nada. É uma questão de imagem:
falidos mas luminosos. E pronto, querida Joana, é isto. Desculpa se te pesei
demasiado e se te respondo por e-mail - mas convém ser rápido. Nunca se sabe o
que nos pode ainda acontecer.
Um beijo.
André Macedo, aqui
