Entre os países desenvolvidos, Portugal foi aquele cujo risco de default (isto é, de não conseguir pagar as suas dívidas) mais diminuiu internacionalmente no terceiro trimestre deste ano.
Dito de outra forma, Portugal foi o país desenvolvido que recuperou mais credibilidade nos mercados.
Portugal recuperou credibilidade?
Foi o país desenvolvido que viu o seu risco cair mais?
No entanto, na excelente entrevista concedida ao SOL em Julho, o Presidente da República já dizia que Portugal conseguira no último ano o feito relevante de «recuperar a credibilidade externa».
A afirmação, que aliás fazia manchete, não teve tanta repercussão noutros media como outras passagens da entrevista, por uma razão compreensível: os jornalistas preferem as más notícias.
Entretanto, mesmo os que repararam nessa declaração optimista de Cavaco Silva, faziam a seguinte pergunta: de que nos serve a credibilidade externa?
De que vale termos uma boa imagem no estrangeiro?
Não é isso que nos matará a fome nem resolverá o drama do desemprego.
Sucede que, num mundo cada vez mais global, a imagem de um país é determinante para o seu sucesso (ou insucesso).
Quem terá vontade de ir fazer turismo para a Grécia, por exemplo, depois de ver as imagens de caos e desordem que de lá nos chegam?
E quem se disporá a investir na Grécia, com os problemas sociais que tem, com os problemas políticos que tem, com os problemas bancários que tem, com o risco de o seu investimento passar a valer metade ou menos em caso de saída do euro?
E quem se disporá a emprestar dinheiro à Grécia, dado o elevadíssimo risco de incumprimento que comporta?
Aimagem externa de um país, nos tempos de correm, é decisiva.
Só um país bem visto no estrangeiro pode atrair turistas em número razoável – e Portugal precisa de turistas como de pão para a boca.
Eles gastam aqui dinheiro resultante das poupanças feitas lá fora, contribuindo para a economia portuguesa.
E depois temos o investimento.
Em virtude da manifesta falta de capital existente cá dentro, dada a nossa limitada capacidade produtiva e da fraca poupança, Portugal precisa desesperadamente de investimento estrangeiro.
Só o investimento estrangeiro pode neste momento impulsionar fortemente a economia e criar emprego.
Ora, nenhum investidor internacional colocará o seu dinheiro num país à beira do abismo.
E há também o crédito.
Tendo em conta a nossa crónica dívida pública e enorme dívida externa, precisamos de quem nos vá financiando em condições suportáveis, e isso só acontece se a imagem do país for positiva.
A imagem de um país no exterior é hoje, pois, importante para quase tudo.
Um país com uma imagem negativa não tem futuro – sendo-lhe praticamente impossível superar uma situação de crise, como acontece neste momento com a Grécia.
A globalização é cruel – e os que adquirem má fama têm poucas hipóteses de se safar.
Neste sentido, são preciosas as sucessivas declarações de responsáveis internacionais a elogiarem o esforço de Portugal.
O FMI, o BCE, o Eurogrupo, a Comissão Europeia, o Governo alemão, etc., têm-se desdobrado em declarações de elogio a Portugal, considerando que está «no bom caminho».
E os mercados já começaram a reagir positivamente, como se viu pelo sucesso da emissão de dívida da semana passada.
Mas nós, portugueses, com o nosso proverbial pessimismo, continuamos a ver tudo negro.
Criticamos o Governo e a troika, vamos para a rua, atacamos os políticos em geral.
O ambiente é tão carregado que, mesmo aqueles que pensam que o país está a fazer aquilo que tinha de fazer, não têm coragem para o dizer alto.
Envergonham-se.
Um dia destes, arriscamo-nos a ter o estrangeiro todo a dizer bem de nós, a elogiar os nossos governantes, a apresentar-nos como exemplo – e nós a fazermos manifestações à porta do Parlamento e a assobiarmos os políticos.
Claro que ninguém gosta de pagar mais impostos.
Mas a questão não é essa.
A questão é: para darmos a volta a crise, temos de reconquistar a confiança dos mercados.
E isso já começou a ver-se.
Essa é, verdadeiramente, a luz ao fundo do túnel.
José António Saraiva, aqui
