quinta-feira, 19 de julho de 2012

O MR. TUGA DESLIGOU O DINHEIRO DO TRABALHO

A minha gente tem uma expressão que resume, com justiça metafórica, um certo estado de espírito do Mr. Tuga: "acham que o dinheiro cai da telha".

Em diversos sectores e até em diversas classes da querida pátria, existe uma estranha disposição em relação ao dinheiro. É como se o dinheiro caísse mesmo da telha, em forma de chuva élfica.

Aquilo cai na conta, não é? É como se existisse uma fábrica de dinheiro e "eles", que controlam a fábrica, só têm de dar o dinheiro à malta (o "eles" é um conceito teológico-político que abarca toda a gente que usa fato e gravata: políticos e a fauna do guito - banqueiros, gestores, etc.).

De forma simples, o dinheiro deixou de ser visto como a consequência do trabalho.
Com o seu olhar seco de cirurgião holandês, José Rentes de Carvalho aponta sempre para esta relação chico-esperta que os portugueses mantêm com o dinheiro. Numa entrevista ao i logo após o pedido de ajuda (abril de 2011), Rentes disse assim: "esta desgraça que está a acontecer agora já era previsível poucos anos depois da revolução, sobretudo quando Mário Soares disse que podendo entrar na Europa íamos chupar aquela teta ao máximo.

Pois chupámos, e agora pagamos. A gozar a vida sem trabalho não se vai lá (...) para ganhar é preciso trabalhar". Guardei esta entrevista, porque resume este modo de estar português: viver à grande e à holandesa sem o nível de trabalho correspondente e, acima de tudo, sem poupança.
Repare-se que não estou a falar das tribos do RSI e da malta que vive num perpétuo subsídio de desemprego. O problema vai mais fundo. O Mr. Tuga, compostinho e de emprego estável, pensava (e ainda pensa) que o crédito caía da telha. Uma família com vários carros passou a ser uma tradição. Os rebentos não podiam ir para a faculdade de transportes, não é? Ter casa na cidade e uma segunda casa de férias junto ao mar também passou a ser uma coisa natural.

O trabalho produzido não gerava poupança suficiente para semelhante esforço financeiro, mas, ora essa, era para isso que servia o maior dos direitos adquiridos: o crédito.

Há dias, no Algarve, um senhor dizia que tem "quatro casas", mas só "conseguiu alugar três neste Agosto".

Coitadinho.

Henrique Raposo, aqui