Se há coisas nos políticos com que nos indignamos é a treta,
a mentira, as faces ocultas, a manutenção de privilégios e de tubarões, com o
governo subordinado aos grandes poderes económicos, corrupção de ministros,
cursos tirados ao domingo, gastos faraónicos, sem rei nem roque, a cabeça fora
da realidade ou metida debaixo da areia, a pressão sobre a imprensa…
Estes
foram algumas razões que levaram à última mudança de governo, mais os buracos
financeiros e o fartar do compadrio. Já bastava o pântano em que Guterres nos
deixou ou a tanga que herdámos de Durão Barroso.
A verdade é que aos nossos olhos, decorridos estes meses (e já comemos com um ano de austeridade), o governo, embora longe da corrupção e de outras feias maleitas, ainda não acabou com os privilégios, não congelou nem os tubarões nem os polvos (só os funcionários públicos), cedeu à EDP na questão das rendas que bem podiam ser muito menores, continua a poupar aos graúdos os sacrifícios e a castigar demasiado a classe média, com quase um milhão no desemprego, dura chaga social, por cumprimento das exigências da Troika.
Hoje nos indignamos com dois casos. 1) Relvas, que se saíra
razoavelmente bem da audição no Parlamento sobre o caso das Secretas e seu
relacionamento com o ex-espião, Jorge Silva Carvalho, caiu em incongruências
que soube iam ser exploradas pelo Público.
Que fez? Asneira grave, pelo que veio escancarado no i.
Pressionou para que a notícia não saísse. E, se saísse, ele,
Relvas poria a vida privada da jornalista ao sol. A ser verdade (onde há fumo,
haverá fogo), se ficou só pela pressão, é uma grave imprudência; se foi para
ameaça, será erro lamentável. O braço direito de Coelho nega. 2) Lamentável é o
que lemos.
Segundo Diário da República, de 19/1, na questão do “roubo” dos
subsídios de férias e de Natal, continuam as desigualdades, as excepções: o
pessoal do Gabinete do Secretário de Estado do Ensino Superior e da Secretária
de Estado da Ciência… os dois subsídios vão ser-lhes recompensados a “título de
abono complementar”. Os nomes que eles dão aos privilégios de uns tantos. Mais
uma vergonha, uma afronta a quem é pobre. Que diabo, cortem a direito, de uma
vez por todas.
Armor Pires Mota, no 'Jornal da Bairrada' de 24 de Maio de 2012