1 Durante a apresentação de um livro com contributos para a revisão do programa do PSD, o primeiro-ministro disse que Portugal irá cumprir o programa de assistência económica "custe o que custar".
Estou convencido de que Passos Coelho não queria dizer exactamente o que acabou por exprimir. Não queria, com certeza, dizer que mesmo que estivesse convencido de que cumprir o programa significasse destruir a economia portuguesa, aumentar o desemprego para níveis insustentáveis, erradicar todos os direitos sociais, fazer crescer a já imensa desigualdade, levar milhares de empresas à falência, ele o cumpriria cegamente.
Claro que não. O primeiro-ministro acha que a receita em que notoriamente acredita vai ter o efeito exactamente contrário.
No entanto, disse: "Custe o que custar." E as palavras são importantes na boca dum primeiro-ministro.
Ouvindo Passos Coelho, voltei a lembrar-me dum artigo de Wolfgang Munchau em que este escrevia que os políticos, os bons, são os especialistas do politicamente possível. É muito provável que o primeiro-ministro saiba que o programa que quer cumprir a todo o custo levará inevitavelmente aos resultados acima descritos. A questão é que ele pensa, tudo o indica, que é preciso que isso aconteça no curto prazo para que tudo melhore decisivamente a médio-longo prazo. E o que ele parece esquecer é o politicamente possível. Em democracia, claro está.
A democracia está umbilicalmente associada a bem-estar, a direitos sociais, a desenvolvimento económico. Os povos não têm um amor indestrutível à democracia. Não há regime que sobreviva ao desemprego, à fome, ao descontentamento generalizado, sobretudo a democracia. Não há cidadão que, em estado de desespero, deixe de dar ouvidos a quem lhe promete sustento e o mínimo de condições de vida, mesmo que os tenha de trocar por liberdade e direitos de participação na vida pública. Que não restem dúvidas: ninguém trocará pão por democracia e liberdade. Não há povo que esteja disposto a sofrimentos terríveis hoje por uma perspectiva vaga de abundância amanhã.
O Plano Marshall, implementado na Europa após a Segunda Guerra Mundial, é um bom exemplo da consciência que os líderes americanos e europeus de então tiveram desta realidade. O Plano foi muito mais do que um simples plano de recuperação económica. Foi uma arma política fundamental para a instauração da democracia numa altura em que esta se encontrava ameaçada pelas condições de vida das populações europeias e pela pressão colocada pelas soluções ditatoriais a leste. Os dirigentes políticos, na altura, perceberam muito bem que não vale a pena falar de democracia e de liberdade a quem tem fome. Fareed Zakaria no livro O Futuro da Liberdade elencava os países que estão à "porta" da democracia. Para isso utilizava um critério muito simples: afirmava que a partir dum determinado rendimento per capita, um país estaria pronto para ter um regime democrático. Quando escreveu o livro não se punha a hipótese de países verem a sua economia entrar em colapso, como é o caso que hoje enfrentamos. Mas é muito provável que pudesse fazer a análise inversa: a partir de que valor e de que perda de direitos sociais é que a democracia deixa de fazer sentido para as populações.
Infelizmente, não é só Passos Coelho que está esquecido da história do século XX europeu, os actuais líderes europeus parecem sofrer da mesma amnésia.
2 A REN, na peugada da EDP, foi vendida ao Estado chinês. A partir desta altura, a Rede Eléctrica Nacional bem como a EDP vão ser geridas não em função dos interesses do Estado português, não em função do mercado, mas em razão do interesse da China. Não houve assim privatização rigorosamente nenhuma, houve sim uma nacionalização feita por uma ditadura feroz que despreza os mais básicos direitos humanos e que não hesitará em utilizar as duas empresas para os seus propósitos, quaisquer que eles sejam.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
Pedro Marques Lopes, aqui
