“Quem fala de mais torna-se detestável, e quem procura impor-se acaba por ser odiado” Eclesiástico 20,8 – antigo testamento.
Passos Coelho que tem estado sóbrio na governação deu recentemente duas fífias que podem indiciar uma deriva para um autoritarismo que será sempre inconsequente e até fatal.
Na forma como tratou o tema da suspensão da tolerância de ponto no carnaval pareceu querer mostrar autoridade mas acabou por apenas usar o poder que detém. A autoridade conquista-se, não se impõe.
O senso comum ajuíza que poderíamos prescindir da terça-feira do carnaval e ajustar os festejos para o fim de semana. A ideia seria mostramos a quem nos tem mantido à tona, emprestando dinheiro, que estamos disponíveis para alterar hábitos e ser mais produtivos, cortando nas férias ou feriados. Mas em tudo há que ponderar as consequências e os aspetos negativos. Não dar a tolerância este ano poderá significar criar prejuízo em muitas terras e também mentir ao povo, pois andaram a discutir durante meses se tiravam 3 ou quatro feriados, não cinco.
Dizer que para o ano o carnaval teria de ser comemorado noutras condições teria sido muito mais inteligente e todos os portugueses compreenderiam e até apoiariam o PM. Mas Passos ainda sugeriu que estávamos a ser piegas e que deveríamos ser menos complacentes e mais exigentes. Até concordo com ele se não andasse a deixar nomear boys tal e qual como fez Sócrates. Para além de piegas, ainda conseguimos suportar com humor carnavalesco e muito estoicismo frases menos acertadas e sem qualquer graça do pobretana Cavaco Silva, descabidas de Passos Coelho ou do pretencioso Relvas.
Outro caso é a diminuição das freguesias. Agora o governo vai fazer uma reforma à força. Primeiro colocou um livro verde e pediu sugestões. Como obviamente, repescaram ideias feitas onde enxertaram à pressa os dados do último censo a coisa só deu para remodelar freguesias deixando de fora onde mais doía; mexer nos concelhos. Como muitas autarquias já se manifestaram contra então é mais fácil usar o poder da lei e dar prémios monetários a quem se junte e não se case de livre vontade.
Mais valia não ter feito o número pseudodemocrático do livro verde.
António Granjeia, no 'Jornal da Bairrada' de 9 de Fevereiro de 2012
