sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

SUGESTÃO DE LEITURA - PORQUE O FIM DE SEMANA ESTÁ AÍ

O derradeiro livro do historiador norte-americano Tony Judt é uma obra consagrada à memória por dupla via: na substância e no processo que presidiu à sua feitura. Diga-se, aliás, que embora a elegância formal e o conteúdo intimista com que, as espaços, Judt surpreende o leitor – habituado ao analista feroz que aquele académico era – sejam merecedores de deferência, o método construtivo dos textos inclusos no volume denuncia um espírito superior.

É o próprio Judt que explica a urdidura difícil das páginas, singelas no cômputo da obra do polémico investigador que escreveu o monumental Pós-Guerra, História da Europa desde 1945 (Edições 70, 2010): já muito afectado pela esclerose lateral amiotrófica, conhecida como doença de Lou Gherig – mal neurodegenerativo, que ataca as células do sistema nervoso central, inibindo os movimentos e a fala até à falência orgânica –, que lhe fora diagnosticada em 2008, Judt vê-se confinado à cama, mas mantendo a lucidez de sempre, agora tormentosa.

Insone e só, entregue à contemplação da sua própria degradação, Judt percebeu que, noite adentro, redigia histórias na cabeça, trocando “a contagem de carneiros pela complexidade narrativa, com o mesmo efeito”. Resolveu partilhá-las, decidido a não se deixar derrotar pela doença nem pelo sofrimento, ciente de que a dimensão do seu inferno particular jamais seria alcançável por outrém.

Assim, socorrendo-se dos artifícios mnemónicos dos viajantes - o “palácio da memória”, que consistem em mobilar uma casa imaginária (daí o duplo sentido de chalet do título...) com fragmentos da narrativa a reconstituir depois num todo coerente percorrendo o sentido inverso –, Judt regressa aos autocarros da sua infância na Londres natal, ao austero professor de alemão, ao seu sionismo incondicional que o levou a passar os verões da adolescência num kibutz...

Mas o que impressiona mesmo neste opúsculo é a ironia fina que perpassa as suas páginas, e até um humor leve – sobre a culinária materna ou a arte de ludibriar a proibição de namorar uma aluna, casando com ela – como se o seu martírio não fosse mais do que uma parte aborrecida da comédia da vida.
(Elmano Madail)

TÍTULO: O chalet da memória
AUTOR: Tony Judt
EDITOR: Edições 70
PREÇO: 15 euros

Retirada daqui