A crise esteve no centro das várias mensagens de Natal, proferidas quer por Passos Coelho, quer por alguma figuras da igreja católica, que, no entanto, deram um tom diferente, procurando deixar palavras de esperança, apesar da vivência de um Natal nada fácil para muitas pessoas, famílias e empresas.
O cardeal patriarca falou mesmo em crise de esperança na sequência de haver hoje mais pobreza e mais sofrimento. Por sua vez, Passos Coelho, na sua primeira mensagem de Natal ao país, entre outras coisas, frisou que “temos de olhar de frente com esperança, porque sabemos o que queremos”.
Saberão claramente? O governo quer honrar os compromissos, porque não há empréstimos de borla, como pensam alguns putativos deputados rosa e até Manuel Alegre, isso o país já sabe, mas gostaria de saber que medidas vêm aí para ir além do défice e dos medos dos bandos de salteadores que entraram em acção e não dão tão tréguas aos nossos bolsos e bens.
Como sempre, não anunciou facilidades, bem pelo contrário, e desta vez, percebeu que a solução não passa pela sugestão da emigração dos jovens, pelo menos nos termos em que o dissera dias antes. O que mais pediu foi confiança (que tão em baixo anda) para as muitas “reformas estruturais” que virão com o 2012.
Passarão pela reforma da Justiça que é o calcanhar de Aquiles da nossa coxa e vesga democracia, transparência da máquina administrativa, a responsabilização do Estado na economia e na sociedade (e deveria sê-lo na responsabilização e criminalização dos que gerem mal ou roubam a coisa pública, acrescentamos nós…)
Anunciou ainda grandes mudanças nas estruturas económicas, mas julgamos que deveria ter aberto mais o livro sobre “as estruturas que têm de ser mudadas”, e que esse desígnio deve pertencer às pessoas com os seus sonhos e projectos.
Que venham, mas que o governo não esqueça nunca que nas reformas estão sempre em primeiro as pessoas, que não são meros burros ou camelos de carga, resignados à sua condição de carga.
Armor Pires Mota, no 'Jornal da Bairrada' de 29 de Dezembro de 2011
