domingo, 23 de outubro de 2011

VEJAM LÁ SE NÃO SE ENGANAM OUTRA VEZ

Kadhafi morreu e os especialistas na matéria já decretaram que acabou a guerra civil e que a Líbia vai finalmente ter eleições.

Alguns atrevem-se mesmo a prever o futuro e garantem que elas vão ser livres e democráticas, à moda do Ocidente.

Deus os oiça.

Acontece que a chamada Primavera Árabe ou Revolução Árabe, designações que, no fundo, vão dar ao mesmo sítio, excitou o mundo ocidental, de Washington a Londres, passando por Paris, Bruxelas, Madrid e, certamente, Lisboa – o mesmo que ficou excitadíssimo quando Kadhafi abandonou a fase terrorista e abraçou os grandes líderes ocidentais, gulosos com o petróleo líbio e a fortuna que o ditador tinha acumulado nos 40 anos que esteve no poder.

Ainda por cima, o homem era generoso, um mãos-largas, e por isso mesmo merecia ser tratado com passadeiras vermelhas, tendas no Forte de S. Julião da Barra e todas as bizarrias que lhe passavam pela cabeça, por ser louco ou porque lhe dava gozo humilhar os seus antigos inimigos.

Da Tunísia ao Egipto, passando pela Líbia, a Revolução ou Primavera Árabe está em curso a grande velocidade. O primeiro teste acontece este fim-de-semana na Tunísia com a realização de eleições legislativas, as primeiras depois da fuga do ditador Ben Ali para a Arábia Saudita. Domingo à noite ou segunda de manhã logo se verá se a Primavera não é afinal um rigoroso Inverno e se o sonho não acaba num inferno para uma Europa que adora pôr-se de cócoras sempre que lhe aparece um discípulo de Maomé pela frente.

O melhor é mesmo esperar o pior. E talvez não fosse má ideia a NATO, que teve uma intervenção decisiva na queda e na morte de Kadhafi, não desarmar o dispositivo militar e estar pronta para o que der e vier. Isto se ainda houver orçamento, claro está, porque a União Europeia está sem dinheiro para tantas encomendas e os EUA já deram para estes campeonatos democráticos.

Mas já agora, para que a hipocrisia ocidental e os seus fervores democráticos não acabem em grandes tragédias, seria muito interessante que os grandes líderes do mundo, de Merkel a Obama, passando por Sarkozy e Barroso, não esquecessem o que se anda a passar na Síria, peão de brega do Irão no Médio Oriente e passador de armas e dinheiro para o Hezbollah do Líbano e o Hamas da Faixa de Gaza. É evidente que estes dois movimentos terroristas apoiados por Teerão têm imensos apoios em certos sectores ocidentais, os mesmos que culpam o Ocidente pelos males do mundo e desculpam todos os crimes aos que não suportam a liberdade e a democracia.

Claro que a Síria e o Médio Oriente em geral estão neste momento a ser objecto de um interessante conflito entre um persa e um otomano, uma situação no mínimo humilhante para o mundo árabe. Nesta disputa entre o iraniano Ahmadinejad e o turco Erdogan, o chamado Ocidente democrático está completamente fora de jogo e, seja qual for o vencedor, uma coisa é certa. Nunca virão boas notícias para a civilização, a não ser que Israel, a única democracia da região, com ou sem primaveras árabes, se sinta ameaçado, decida lutar pela sua sobrevivência e salve o Ocidente da desgraça.

António Ribeiro Ferreira, aqui