A intervenção de Cavaco Silva veio agitar as hostes laranja e dar força aos que advogam outra política, com mais parcimónia, bom senso e equidade, menos empobrecedora.
O homem que gostou de ver as vacas dos Açores a sorrir nos pastos (outros por cá preferiram rir à boa ordenha das vacas gordas) por vezes, deixa-nos esta sensação preocupante: fala quando deveria estar calado e cala, quando deveria erguer a voz.
Claro que ouvir do PR que o corte nos subsídios “é uma violação do princípio básico da equidade” a gente gosta. Passos Coelho, não, nem os barões que consideraram o discurso “pouco recomendável”. Com que intenção e oportunidade o fez, ainda não se sabe.
As consequências o dirão. Não sabemos para que servem os encontros entre os dois. Para cada um ficar a assobiar para o lado? Ainda há uma outra hipótese (sempre o maldito tabu de Cavaco!): terá sido para amaciar os protestos e as greves que vêm aí ou, se tudo correr mal, para ouvi-lo dizer, um dia, (lagarto, lagarto!) “eu não dizia?” Era isso que diziam as cartilhas económicas, mas o Gaspar não as leu…
É verdade que não há equidade, que os funcionários públicos e a classe média estão a ser perseguidos, mas eu adorava ouvir Cavaco Silva a dizer quanta iniquidade há nas subvenções obscenas mensais que temos de pagar a políticos que, um dia, até 2005 - sorte para eles, azar para o país - foram titulares de cargos políticos. Era o tempo das vacas gordas, do regabofe geral.
Subvenções vitalícias, atente-se, que no próximo orçamento de Estado vão abranger mais de 400 sortudos ex-líderes, presidentes da República, chefes de governo, ministros, deputados, gestores de topo, uma grande trupe que deixou o país na miséria. Mas ninguém lhes vai ao bolso, fazem parte do sistema, alegam não haver leis que o permitam.
É assim, os políticos protegem-se uns aos outros e alguns cobrem-se com a mesma manta.
Armor Pires Mota, no 'Jornal da Bairrada' de 27 de Outubro de 2011
