Na actual crise europeia, a Irlanda é um dos países em situação mais crítica, embora lá o problema não seja a dívida pública e sim uma bolha imobiliária.
Quando esta rebentou, dezenas de milhares de casas passaram a valer uma fracção do que antes valiam.
Isso deixou em maus lençóis não apenas os proprietários como os bancos, que de repente viram desaparecer as garantias dos gigantescos empréstimos feitos com entusiasmo cego ao longo de anos.
No período em que a bolha crescia, Simon Kelly foi um dos seus principais agentes. Filho de um famoso construtor, ainda adolescente começara a trabalhar com o pai. Num país onde a educação superior é valorizada e excelente, nem chegou a terminar os estudos. Dedicou-se ao negócio e descobriu o prazer de mandar construir prédios, com o poder que isso dava.
Quando a bolha começou, facilitada pela cumplicidade dos promotores com políticos indulgentes e com bancos ansiosos por lucro fácil, Kelly encontrava-se na posição ideal para tomar partido. Rapidamente começou a movimentar centenas de milhões de libras. Apartamentos, arranha-céus, hotéis de luxo...
Conforme ele mais tarde explicaria, a construção perdera de vista o seu objectivo tradicional de fornecer casas e escritórios a gente real que precisava deles. Importante era o negócio, e o estilo de vida associado, com mansões e carros de luxo e contratos milionários combinados em partidas de golfe.
O ego sonhava acordado, dia após dia. E de repente tudo estoirou.
Garantias pessoais fictícias
Kelly conta agora a história num livro, "Breakfast with Anglo". Diz que começou a perceber para onde tudo se encaminhava quando perdeu um concurso para um grande empreendimento e sentiu alívio. A verdade é que sabia - embora recusasse admitir, mesmo a si próprio - que jamais poderia pagar os 270 milhões de libras que ele ia custar.
A partir de 2007, foi o desastre. Preços em queda livre, casas vazias, falências em massa, suicídios. Um dos bancos mais envolvidos na bolha, o Anglo Irish, perdeu 98% do seu valor. Outros também não ficaram incólumes. Para absorver os prejuizos, o estado criou uma instituição própria - o NAMA - que tem estado a contactar os empresários envolvidos, mas não deverá resolver muitos dos problemas.
Kelly e o pai, obviamente, não escaparam. O velho Paddy perdeu a mansão. (Também já não precisa, com os filhos fora de casa, diz Simon.) Passou a viver numa casa alugada. Quanto a Simon, vê-se aos 39 anos com uma dívida em cima que jamais poderá pagar. Algo na ordem dos duzentos milhões de libras.
Os bancos exigiam sempre aos empresários que garantissem os empréstimos com os seus bens pessoais, explica. Mas mesmo os bancos tinham consciência de que essas garantias eram largamente fictícias. E estavam-se nas tintas. Enquanto houvesse um cliente ou um contrato a roubar à concorrência...
Um pedido sincero?
Com um nome reconhecível no país, Kelly aproveitou a notoriedade para arranjar uma coluna num importante jornal irlandês. O ano passado, usou essa coluna para fazer um pedido inesperado aos seus compatriotas.
"Peço desculpa. Estas deviam ser as primeiras palavras a ouvir de um construtor", escreveu. Reconhece que contribuiu para causar danos graves ao seu país, e que esses danos vão levar anos a consertar. Diz que a Irlanda tem um stock de estradas, casas e edifícios de alta qualidade, e que é preciso aproveitá-los em benefício comum. E nota que não serão os políticos a salvar ninguém.
Muita gente não acredita na sua boa fé, uma vez que no livro ele culpa tudo e todos e dá sentenças sobre muita coisa. Incluindo o estilo de vida dos seus colegas. Isto apesar de ter posto a casa onde vive - comprada por 780 mil libras, e instalada em cinco hectares de boa terra - em nome da mulher. Como aliás fez com o seu carro de luxo.
Interrogado sobre o assunto, encolhe os ombros: "Qualquer construtor civil com juizo faz isso logo à partida". Para os seus colegas que agora tentam imitá-lo também aí, só tem desprezo.
Luis M. Faria, aqui
