quarta-feira, 26 de outubro de 2011

MAIS POBRETES E MENOS ALEGRETES


O Conselho de Estado reuniu ontem. Uma inutilidade. O futuro já não passa por ali.

O Conselho de Estado esteve ontem reunido. Faz parte do ritual democrático, mas não aquece nem arrefece. Basicamente, é uma inutilidade. A juntar a outras que por aí andam a gastar dinheiro.

A reunião ficou marcada pelas posições do Presidente da República sobre a equidade do corte dos subsídios aos funcionários públicos.

Parece que ninguém conseguiu perceber muito bem o que ia na cabeça de Cavaco Silva quando encontrou uns jornalistas no passeio e desatou a falar sobre o Orçamento do Estado. Algo inédito para quem faz questão de ser muito institucional. Uns dizem que o Presidente da República já percebeu que Portugal vai mesmo bater com força no muro e quer ficar a assistir ao desastre comodamente instalado no balcão.

Outros acham que foi para dar uma mãozinha ao PS e preparar dessa maneira um governo de salvação nacional para responder à desgraça que aí vem. E ainda há os que entendem que Cavaco Silva apenas soltou o funcionário público que há e sempre houve naquela cabeça. Seja como for, Pedro Passos Coelho fez questão de tornar ainda mais inútil a reunião do Conselho de Estado e explicou muito explicadinho o que se pretende com o Orçamento do Estado.

Uma intervenção clara, goste-se ou não, concorde-se ou não. Sobre o magno problema da equidade fiscal, o primeiro-ministro lembrou a Cavaco Silva que mais ninguém acreditaria em Portugal se o esforço principal de consolidação orçamental não se fizesse pela lado da despesa. Repetir a velha fórmula de aumentar as receitas para tapar os buracos do Estado já deu o que tinha a dar. Se o caminho seguido fosse esse, em Novembro estávamos de novo de mão estendida, sujeitos a novas e mais duras medidas de austeridade.

Mas Passos Coelho também disse aos portugueses e ao Presidente da República que ninguém sabe o que vai acontecer a Portugal amanhã. Uma coisa sabe Passos Coelho e também sabem as famílias e as empresas. Vai ficar tudo mais pobre. Não só em 2012. Os anos desta segunda década do século xxi vão ser de penúria e pobreza. Não há nenhuma alternativa. E os cenários podem ficar bem mais negros se a União Europeia não encontrar soluções credíveis para a crise da dívida soberana e a pré-falência de muitos bancos europeus.

O futuro vai ser assim quer queiram quer não os que tapam o Sol com a peneira e imaginam que há soluções inteligentes para a pobreza do país. Não há. São mais ilusões sobre ilusões que não levam a lado nenhum. A tarefa do governo é rebentar com o monstruoso Estado, reduzir os seus gastos, entrar nas caixas negras da administração pública e das empresas públicas para descobrir as dívidas e as responsabilidades que ainda estão escondidas.

Um trabalho violento que pode ser perfeitamente inglório se a Europa entrar em colapso e o mundo em nova recessão económica. As certezas podem ser poucas, mas há uma a que ninguém vai escapar nos anos mais próximos: o país vai ficar cada vez mais pobre e cada vez menos alegre.

É natural. Só Salazar descobriu a fórmula do pobrete e mais alegrete.

Agora não há pão e não há alegria. Há medo, incerteza e o salve-se quem puder da desgraça.

António Ribeiro Ferreira, aqui
 
Conheça aqui o Comunicado da reunião do Conselho de Estado