quarta-feira, 20 de julho de 2011

'AS MINHAS MAMAS RENDERAM À EMPRESA 5 OU 10 VEZES MAIS'

Fala da operação para aumentar os seios, dos amores e de posar para revistas com a abertura de quem nunca teve "favores de ninguém".

Maya é verdadeiramente uma profissional. Sabe seduzir os jornalistas, não recusa uma entrevista e pondera todas as respostas. Chega atrasada 15 minutos, mas antes tem o cuidado de enviar um SMS a avisar

"Importa-se que me maquilhe enquanto falamos? Não tive tempo", pergunta assim que se senta. A taróloga/relações públicas/empresária responde às primeiras perguntas enquanto espalha base pela cara e não tem complexos em admitir que o vestido comprido que usa é "cedido". Mais tarde confessa que foi presidente da Juventude Democrata-Cristã com 19 anos e que desistiu do curso de Direito porque não lhe interessava. A vida da taróloga não foi nada do que planeou. "Mas tudo o que a vida me trouxe foi bom", acrescenta logo a seguir.

Afinal como é que uma taróloga vai parar ao mundo dos famosos?
Ser conhecida nunca foi um objectivo, ser reconhecida talvez. Sinceramente, acho que foi por destino, não foi nada que ambicionasse. Mas sempre fui muito popular na minha rua, nos sítios que frequentava. Tinha uma casa na Ericeira, onde costumava dar festas, e sempre fui muito popular e extrovertida. Mas nunca sonhei ser famosa, sempre fiz a minha vidinha. Há pessoas que sonham aparecer e fazem tudo a troco disso. O meu sonho, primeiro, foi ser bailarina, mas não vingou.

E não vingou porquê?
Porque o meu irmão mais velho dizia, na altura, que as bailarinas estragavam as pernas e que não era carreira para uma menina. Então passei a estudar piano - coisa para que não tinha jeito nenhum, e portanto não me valeu de muito. A minha vida nunca foi nada do que eu quis, foi sempre uma surpresa, e tudo o que me trouxe tem sido bom. As pessoas dizem que constroem o seu destino. É claro que sim, fazemos algumas opções, mas há coisas que aparecem sem que tenhamos feito nada por elas.

Há quem pense que subiu por ser taróloga de gente famosa. Isso é verdade?
Não. Subi graças ao Carlos Castro, mas não era taróloga dele. Conhecemo-nos porque trabalhávamos na mesma revista, quando comecei a escrever. O Carlos começou a convidar-me para festas, onde conheci famosos, e a imprensa teve a gentileza de me fotografar e tornou-me conhecida. Mais tarde comecei a fazer programas de televisão e é aí que a pessoa se torna verdadeiramente famosa. Tive na vida alguns favores, mas de pessoas que conheci há muitos anos enquanto Eunice. Enquanto Maya, nunca tive favores de ninguém.

O que é que a televisão lhe trouxe? Dinheiro?
Trouxe-me rendimentos, claro, porque sou paga pelo trabalho que faço. E também trouxe mais-valias enquanto relações públicas, porque ganho mais por ser conhecida e os meus eventos aparecerem na televisão. Mas acho que se estivesse só à frente das minhas empresas talvez vivesse melhor. Há outras regalias: por exemplo, este vestido não é meu.

Usa muitas coisas emprestadas?
Emprestadas não! Isto é uma permuta de imagem. Ninguém me empresta nada. Quando uma empresa me cede um vestido tem o retorno das vendas daquilo que eu uso, porque as pessoas querem aquilo que eu visto. Isto é uma permuta de imagem. É publicidade. As minhas mamas, paguei-as. Custaram 5 mil euros. Não as paguei, mas renderam à empresa cinco ou dez vezes mais, graças à atenção que a imprensa deu à operação.

A crise chegou ao mundo dos famosos?
Não, de maneira nenhuma. Eu, por exemplo, tenho o mesmo número de eventos que no ano passado. Só não aumentei preços e pedem-me trabalhos mais criativos pelo mesmo dinheiro. Ou seja, ganho menos. O ano passado comecei a sentir uma diminuição per capita do consumo no Manta Beach. As pessoas continuam a ir, mas o consumo baixou. Havia uma média de 12,8 euros por pessoa e baixou para 10,7. Este ano vou baixar o preço das bebidas para manter um volume de vendas simpático. Mas não posso dizer que tenha crise. Tenho crise é para receber... é mais complicado do que era.

Há famosos que se aproveitam dos presentes e das regalias?
Não lhes chame famosos, são deslumbrados. Já assisti a cenas incríveis de alminhas que querem à força passar à frente em restaurantes. São deslumbrados e isso passa-lhes. Ou então acabam por cair no esquecimento das pessoas.

O que é que encontrou no mundo dos famosos?
Divertimento.

Mas há pessoas mais interessantes do que outras, ou não?
Sim, mas eu estou tranquila em relação aos meus afectos. No mundo dos famosos tenho pessoas de quem gosto mais e menos. E não é por não gostar de algumas pessoas que não trabalho com elas. Há interesses e alguma hipocrisia, como acontece em todos os meios.

Continua a ter pedalada para as festas?
Sim, embora já não seja uma party girl. Agora sou mais party cougar [risos]. Comecei a sair muito cedo e na minha casa da Ericeira faziam--se muitas festas.

O que é que a fascina na noite?
O convívio, a música. Gosto da noite, herdei isso do meu pai. Ser filha de um padeiro trouxe- -me um certo deslumbramento pela noite. Sempre gostei de alegria, de dançar. Se não havia festa, fazia a festa.

Continua a dar consultas?
Claro, pelo menos duas por dia. Só não dou às sextas-feiras. De resto, tenho uma vida normal. Quando estou na SIC - agora vou estar afastada até Setembro - chego por volta das 8h30, 9h. Depois vou para o meu escritório, trato de emails, propostas de eventos, orçamentos. Há um dia por semana em que só trato de conteúdos esotéricos para a imprensa. Almoço, quando tenho tempo. Depois dou consultas e volto a ter reuniões para eventos. E ainda há dias em que trabalho à noite.

No tarô, tem clientes famosos?
Tenho, claro. Mas não digo quem são, porque essas pessoas confiam em mim.

É procurada para quê?
Pedem-me orientações de índole profissional, mas a leitura do tarô é abrangente, porque a nossa vida é interactiva. A vida pessoal interfere com a saúde, o trabalho mexe com o que se passa em casa. Na consulta vê-se tudo integrado.

E sente que as preocupações das pessoas estão a mudar?
Não. Continuam exactamente iguais. Podem é estar mais intensas, mas são as mesmas: a saúde, o dinheiro e o amor.

Deita cartas a quem não lhe pede?
Tenho lá tempo para isso!

Nem ao novo governo?
Não, porque ninguém me pediu. Deitei as cartas ao Pedro Passos Coelho e aos principais líderes políticos porque a revista "Focus" me pediu, em Janeiro. Na altura disse que ele iria ser primeiro-ministro e pelos vistos não me enganei. E acho que estamos bem entregues. Temos sempre de nos preocupar, mas não podemos estar pessimistas. Neste governo parece não haver jobs for the boys. Estou com muita esperança.

Interessa-se pelo mundo da política?
Sempre. Fui presidente da Juventude Democrata-Cristã aos 19 anos. A política é um bichinho que me acompanhou sempre, desde a Faculdade de Direito...

Andou alguns anos a tirar Direito, mas não acabou. Porquê?
Porque não me interessava. Temos a ideia de que direito é sinónimo de justiça, mas quando passamos por lá percebemos que não é. Trata-se de uma aplicação e manipulação de regras, umas escritas, outras não. Achei que não tinha a ver com a minha personalidade: sou muito crítica e não mudo as minhas convicções. Percebi, no quarto ano, que nunca pactuaria com determinadas coisas nem seria capaz de aceitar determinados casos.

E teve a certeza disso antes de se formar.
Talvez tenha capacidade para perceber as coisas mais cedo que as outras pessoas, não sei. Mas ao Direito fui buscar uma coisa importante para o tarô: a capacidade interpretativa.

E depois como é que aparece a dar aulas?
Sou professora primária desde os 20 anos. E dei aulas durante 20 anos, em várias escolas de Lisboa. A minha escola-ícone foi a do bairro da Boavista, que era uma zona de intervenção prioritária (ZIP). Fiz parte, aliás, da equipa que criou as ZIP. Estive lá seis anos. Foi duro, mas gratificante. Também estive no serviço tutelar de menores - dei aulas a rapazes com 14, 15 anos, muitos não sabiam ler. Depois fui para a Ericeira, onde cheguei a directora da escola e vice-presidente do agrupamento. Depois saí do ensino.

Porquê?
Porque a minha actividade como taróloga cresceu. Na altura tinha umas linhas de valor acrescentado e mais de 20 tarólogos a trabalhar comigo. Pedi uma licença sem vencimento que prescreveu.

Teve tempo para perceber se os agrupamentos são realmente vantajosos?
No tempo em que dei aulas não encontrei vantagens. Eles existem se as escolas puderem gerir os recursos em comum e uma escola puder suprir as lacunas de outra. Mas quando eu era professora a maioria das escolas não tinha recursos. Uma, na Ericeira, há 12 anos, nem água tinha. Noutra éramos nós a levar o papel higiénico. De que valem os agrupamentos nestes casos? Não se pode fazer omeletas sem ovos.

Acha que os miúdos hoje recebem uma educação diferente em casa?
Talvez tenham menos atenção dos pais e haja mais displicência. Não sei. Eu própria não sou filha de uns pais que me dessem muita atenção.

Os seus pais faziam o quê?
Eram empresários. O meu pai era padeiro - a minha mãe vai dizer: não digas isso, o teu pai era industrial de panificação (risos). Começou por ser padeiro, depois tornou-se industrial. Na Amadora. Onde, aliás, ainda temos padarias. Ele trabalhava muito de noite e a minha mãe tinha uma tabacaria e papelaria, também não estava muito em casa. Eu e o meu irmão estudámos em colégios internos - eu no Ramalhão e o meu irmão nos maristas.

Não eram ricos?
Nunca vivemos mal. Até o meu pai morrer, tinha eu 33 anos, foi sempre ele que me pagou os carros. Deu-me tudo o que pôde.

Fala muito do seu irmão. Tem mais irmãos?
Havia também a minha irmã, que morreu há quatro anos. Tinha uma deficiência mental e esquizofrenia e fez uma paragem renal por causa da medicação que tomou ao longo da vida.

Cuidou dela?
Convivia com ela, mas cuidar não, até porque a dada altura ela passou a estar em regime de internato. Visitava-a. Mas a Raquel não tinha por mim uma grande... eu não era a pessoa de quem ela mais gostava. Via em mim aquilo que ela não era. Tive sempre alguma dificuldade no relacionamento com a minha irmã.

Já casou várias vezes.
Sim.

Ainda acredita no amor?
Acredito em amores, claro.

Em amores, não no amor?
Acredito no amor, mas acredito que é uma coisa demasiado boa para só ser vivida uma vez. Já amei muito e muitas pessoas. Essa coisa do amor, no sentido do grande amor, do amor para a vida, nisso não acredito. Felizmente.

E os momentos de ruptura trouxeram-lhe muito sofrimento?
Não. Lido muito bem com essas coisas. São mudanças de ciclo. Até porque, no meu caso, as relações acabaram sempre no fim, quando os sentimentos estavam esgotados. E foi como que uma dádiva.

Ainda não encontrou um homem que entenda o seu ritmo?
Um homem que queira estar na minha vida de uma forma mais regular pode não gostar da exposição pública, como é o caso do meu filho, que não gosta. Não é fácil estar comigo.

Os homens têm dificuldade em lidar com mulheres com alguma projecção?
Não. Os homens não têm dificuldade em lidar com nada, desde que queiram.

Confessou, numa entrevista, que sempre dormiu com todas as pessoas com quem quis.
Verdade.

Não tem medo de se expor quando diz essas coisas?
Não. Expor em quê?

Na sua intimidade.
Mas eu não disse o nome das pessoas! Até posso só ter dormido com os quatro maridos com quem casei...

Também não teve receio de expor a operação.
Não, nenhum.

Acredita que hoje as pessoas vendem demasiado a sua intimidade?
Não tenho tabus em relação ao corpo e a que se fale da vida da pessoa. Eu não tenho. Pode acontecer que a pessoa que está comigo tenha; já aconteceu. Mas eu não tenho pruridos.

Não teve certamente quando aceitou posar para a "FHM". Que reacções teve?
De todo o tipo. Umas pessoas acharam corajoso, outras um horror.

E a sua mãe, o que é que lhe disse?
A minha mãe acha tudo bem e diverte- -se imenso. Uma vez perguntei-lhe à mesa: "Ó mãe, e se eu agora fizesse para a ''Playboy''?" E ela respondeu: "Ó filha, desde que pagassem bem..." [risos]. Em relação à "FHM" disse-me que não mostrei nada que não mostrasse na praia. Não fiz nu.

Não há nada que tenha feito de que se arrependa?
Em termos de exposição pública não. Mas tenho arrependimentos. Arrependo-me, por exemplo, de não ter passado mais tempo com o meu pai.

Gostava de o ter conhecido melhor?
Não. Conheci-o muito bem. Era a melhor amiga dele. Mas gostava de ter estado mais com ele. E também acho que talvez devesse ter casado um pouco mais tarde, da primeira vez.

Porquê?
Tinha 19 anos!

Era imatura?
Os dois. Éramos uns imaturos chapados.

E casaram porquê?
Porque quisemos. Ele tinha 22 anos. Na altura, era normal, éramos educadas para casar. Não fui virgem para o casamento porque isso já era pedir de mais a seguir ao 25 de Abril, mas as grandes linhas da educação do regime estavam lá.

Essa educação ainda existe?
Hoje as mulheres são educadas para a partilha. Mas ainda há umas meninas que andam por aí à caça de bons partidos e querem casar com jogadores de futebol. Acabam sempre por se arrepender.

Rosa Ramos, aqui