As sondagens revelam que todas as dúvidas são legítimas, sobretudo sobre qual será o partido mais votado e qual será a maioria parlamentar que sustente o próximo governo.
As sondagens
Há dois meses, no início de Março, tudo parecia correr de feição ao PSD. As sondagens revelavam um avanço sobre o PS de 10%, em média.
No dia 9, Cavaco Silva, na tomada de tomada de posse, criticou severamente o governo. A 10, no parlamento, discutiu-se uma moção de censura. A 11, José Sócrates foi obrigado a apresentar um novo plano de austeridade, o PEC IV. Passo Coelho, a 13, declarou que não aceitava medidas que exigiam mais sacrifícios aos portugueses. A 23, o barómetro Markest atribuía ao PSD uma vantagem de 22%. Nesse mesmo dia o primeiro-ministro pediu a demissão. Imediatamente a seguir, as agências de rating baixaram a notação do Estado e dos bancos portugueses. Face à acelerada degradação financeira, o governo pediu ajuda ao FMI e à UE. O desenrolar dos acontecimentos parecia beneficiar o maior partido da oposição. No entanto, tal não aconteceu. Hoje, a três semanas das eleições, quando os dados essenciais estão lançados, e são conhecidas as medidas acordadas com a troika, as sondagens revelam que todas as dúvidas são legítimas, sobretudo: qual será o partido mais votado - PS ou PSD - ou qual será a maioria parlamentar que sustentará o próximo governo?
Os debates
A incerteza sobre quem ganhará as eleições a 5 de Junho remete-nos para a deslocação de votos: até que ponto o CDS-PP cresce, à custa do PSD, roubando-lhe a vitória eleitoral e, em simultâneo, qual a recuperação que o PS conseguirá do eleitorado perdido para o BE nas últimas eleições. Por isso, os debates televisivos entre Sócrates e Louçã e entre Passos Coelho e Paulo Portas foram tão importantes como vai ser o debate entre Sócrates e Passos Coelho. No primeiro caso, Louçã começou bem e, citando uma carta do governo ao FMI, sobre a redução da contribuição patronal para a Segurança Social, surpreendeu o seu adversário. Contudo, Sócrates, usando a moção de estratégia apresentada por Louçã à convenção bloquista e explicando as consequências da "reestruturação da dívida", conseguiu o essencial: mostrar o radicalismo e a irresponsabilidade política do BE, e com isso, provavelmente, recuperar mais votos ao Bloco. No segundo caso, Portas, num tom de "bons amigos", foi implacável para Passos Coelho. Desde a "muleta do PS" até "prestar vassalagem" aos autarcas, passando pelas frequentes mudanças de posição do PSD, Passos Coelho ouviu de tudo, sem réplica à altura. Paulo Portas ganhou o debate, e levou a água ao seu moinho: crescer à custa de um PSD titubeante e com uma liderança fraca.
As maiorias
É neste contexto que se devem interpretar as palavras do Presidente da República, quando disse que só daria posse a um governo sustentado por uma maioria parlamentar. Cavaco Silva anunciou a sua decisão para o caso, possível, de o PS ser o partido mais votado, mas com PSD e o CDS-PP a alcançarem uma maioria absoluta de deputados. Se assim acontecer, Cavaco Silva prepara-se para, "ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais", como exige a Constituição, nomear como primeiro-ministro o líder do segundo partido mais votado, provavelmente o PSD, na medida em que este lhe apresente uma solução de governo com apoio parlamentar maioritário. Neste sentido se pronunciou também Paulo Portas no debate com Passos Coelho quando disse que se poderia formar governo maioritário se o CDS-PP tivesse 23,5 % e o PSD 23%. Esta solução - remeter para a oposição o partido mais votado -, a verificar-se, não é só uma nova leitura da Constituição como se formaria o governo maioritário mais frágil na história da democracia portuguesa.
Tomás Vasques, aqui
