É claro. O FMI não dá nada a ninguém, não faz milagres.
Apenas, coloca metas e balizas para que o salto se possa dar. Todavia, este só virá a verificar-se quando os portugueses fizerem um manguito ao vício de ricos, à mandriice e malabarismos, a começar pelos políticos e a acabar no varredor de qualquer vão de escada.
Temos de voltar ao trabalho, pôr de lado as greves que não acrescentam um cêntimo ao PIB. Só o trabalho, mangas arregaçadas, e com gente capaz no comando dos sectores, pode vencer a crise. Os portugueses são capazes, mas o exemplo tem vir de cima, de gente com dois palmos de bom senso e juízo, o que não tem acontecido. O governo, no geral, tem feito como a cigarra: canta bazófias, todo o tempo, apadrinha bodos e bródios, escandalosas mordomias, tem dado azo à rebaldaria.
Levou o país à recessão, à depressão, à falência, ao atoleiro. Apesar de todos os impostos, já devemos mais do que produzimos, o que significa que produzimos muito pouco. Políticos decretaram a morte à agricultura e ao mar. Por aí começou o nosso desastre económico.
Mas o mais curioso é que Sócrates, que alargou o fosso da desgraça e nos levou ao castigo máximo de impostos, continua nas boas graças gerais do povo, quando este, em sondagens, o considera mau governante. As relações de Sócrates com a nação são muito semelhante às de um casal desavindo. A mulher (nação) é traída e castigada, leva porrada em impostos, que dão medo, e não ergue a voz contra os desmandos do marido, muito gastador, mas, na hora de cortar com ele, cofres vazios, tudo lhe perdoa, tudo esquece e até a vizinhança se põe do lado dela que afinal gosta de ser enganada e ludibriada com duas cantigas e três mentiras em cada dia. E o pior é que parece não haver mesmo ninguém capaz de convencê-la a mudar de vida e de amante.
Armor Pires Mota, no 'Jornal da Bairrada' de 19 de Maio de 2011
