sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SUGESTÃO DE LEITURA - PORQUE O FIM DE SEMANA ESTÁ AÍ

A leitura dos diários de outrem que não os tenha produzido para esse efeito constitui necessariamente uma devassa da intimidade do seu autor. Mas não será só por isso que a leitura do primeiro volume dos três que constituem Diários e Apontamentos, de Susan Sontag, que o próprio filho David Rieff coligiu, editou e anotou, após uma severa ponderação, conforme confessa logo no prefácio, se torna algo incomodativa.
Na verdade, trata-se antes de uma certa estranheza por aceder à construção de uma intelectual que nos habituámos a reconhecer como brilhante, militante e assertiva, esquecendo que a autora prolífera e contundente de ensaios sobre fotografia, a pornografia, a sida, a literatura e os seus limites, a guerra e a política, também foi um dia menina e adolescente, padecendo das incertezas e dores próprias do crescimento.
Assim, iniciando com uma entrada lacónica escrita aos 14 anos, e prosseguindo até 1963, assistimos a uma mente precocemente ávida de conhecimento, que tudo lê e assimila mas de forma já crítica e feroz, não só discutindo, mas enervando-se até, com as ideias de filósofos veneráveis, intercalando, todavia, essas explosões de indignação ou deleite puro com expressões de assombro, prazer e remorso profundo quando descobre, por exemplo, a sua homossexualidade: "Ser homossexual fez-me sentir mais vulnerável. Aumenta a minha vontade de me esconder, de ser invisível". (24/12/1959).
Intervalando essa batalha interna – que a dilacera, por vezes – entre a moral judaica e o apelo do corpo que deseja outro igual (ou muitos, até), Sontag desfia trivialidades próprias do quotidiano e do registo diarístico, com listas de músicas e livros, frases alheias, colhidas nos livros ou em conversas, e impressões avulsas. Uma revelação, este livro (Elmano Madail)

RENASCER - DIÁRIOS E APONTAMENTOS (1947-1963)
Susan Sontag
Quetzal
18,00 €

Retirado daqui