O meu pessimismo congénito está a bater no fundo. O PEC 3 que o Governo verá, espera-se, aprovado já era de si demasiado mau para não me levantar preocupações; mas se ao menos resolvesse seja o que seja...
O pior é que não há praticamente dia em que não apareçam, nos média, ex-ministros e catedráticos de Economia, gestores multinacionais e políticos profissionais, a avisar-nos de que, se 2010 já é mau, 2011 ainda será pior. E há os que adiantam datas como 2012 e 2013! Todas essas cassandras falam em bancarrota, crise, recessão, desemprego, estagnação da economia - enfim, só substantivos capazes de pôr a chorar o mais hercúleo optimista.
E têm mais algo em comum: não correm o risco de serem protagonistas da tragédia à beira da qual Portugal parece estar. O leitor já se deu conta de que todos esses que nos vêm pôr a tremer pelo futuro não sentem o menor calafrio? Porque é tudo gente que aufere ordenados de luxo ou pensões de 5 estrelas, que tem ocupações em actividades que não abrirão falência, que conservará intacto o seu nível de vida mesmo que lhe cortem 5% nos rendimentos e o IVA suba para 23%.
Com a crise podem esses bem! O que me custa é pensar que no país são aos milhares, imensos milhares, os Antónios e as Esperanças que o JN pôs há dias a falar sobre como será a sua vida após o PEC 3. O António e a companheira estão desempregados e recebem euro200 de Rendimento Social de Inserção; a Esperança tem, aos 79 anos, euro450 de reforma e à sua conta uma filha e três netos. Como é que se pode viver com tão pouco? E ainda por cima vêm os entendidos e dão-lhes a triste notícia de que "isto" não fica assim, vai piorar... Se ao menos os Antónios e as Esperanças fossem a excepção! Mas não, a excepção são aqueles que da crise sabem a teoria, mas não sentirão a prática.
Sérgio Andrade, aqui