A cantilena do malmequer é a banda-sonora do PSD na discussão do Orçamento. Passos Coelho sabe o que quer, mas Passos Coelho também não sabe o que quer.
Viabiliza, não viabiliza, viabiliza, não viabiliza. A cantilena do malmequer é a banda-sonora do PSD na discussão do Orçamento de Estado (OE), de um partido que se move aos solavancos numa sinuosa auto-estrada de posições, dúvidas, esclarecimentos, "soundbites", ameaças e demais géneros de expressão dramática. Passos Coelho sabe o que quer, mas Passos Coelho também não sabe o que quer.
É como se o líder da Oposição em Portugal padecesse de dupla personalidade. Ora o presidente do PSD que quer ser primeiro-ministro e, como tal, deve agir com responsabilidade; ora o líder da Oposição que anseia ser primeiro-ministro e, como tal, é obrigado a agir com tacticismo. Viabiliza, não viabiliza.
É compreensível que Pedro Passos Coelho resgate para o debate os seus princípios, as suas convicções, a sua ideologia, até, para justificar um chumbo ao Orçamento. Estará, se quisermos, a cumprir apenas o velho preceito de que aos partidos da Oposição em Portugal só está destinada a congénita missão de matar à nascença tudo o que o Governo cria (e nisto PS e PSD são almas-gémeas).
Mas de nada vale a Passos Coelho endurecer, agora, o discurso e voltar a desembainhar a espada que vai rasgar ao meio o que se previa ser um acordo entre os dois maiores partidos se, no final, for forçado a aceitá-lo, seja por imperativos patrióticos ou tão somente por vergar ante pressões externas.
Mas vamos ver o que diz Passos Coelho: o PSD não ajudará à festa do OE se o Governo mantiver o desejo de aumentar os impostos. Pergunta: estará, realmente, convencido o líder social-democrata de que o Governo vai recuar, depois de tudo o que aconteceu? Não acredito que ele acredite.
Por isso, se o PSD quer chumbar o OE, deve dizê-lo o mais brevemente possível. Fazer perdurar o dramatismo para, no final, acabar por engolir o sapo não serve nem os interesses do PSD nem os do país.
Mas se a estratégia social-democrata passar por um chumbo, Passos Coelho deve ter presente a absoluta necessidade de apresentar uma alternativa, por mais injusto que possa parecer para um partido que não foi Governo e não foi responsável pela actual situação. E não é com uma caixa de ideias na Internet que lá vai.
Passos Coelho tem dois caminhos para acabar com a cantilena do malmequer. Opção A: aprovar um "mau orçamento" e ficar para a História como o líder da Oposição que caucionou uma estratégia que pode arrastar Portugal para uma recessão. Opção B: não aprovar o Orçamento e ser lembrado como o irresponsável líder da Oposição que cravou o último prego no caixão do país. Tic-tac, tic-tac.
Pedro Ivo Carvalho, aqui
