Ele estava cada vez mais disposto a nada. Como se os dias
fossem quase sempre tão nus como ele se sentia de cada vez que olhava para
dentro.
Não andava à procura de nada. Estava assim porque tinha
percebido que às vezes, tantas, esperamos por coisas erradas. Estava assim por
isto e por aquilo, por tudo e por quase nada.
Conheceu-a por um acaso, daqueles acasos que às vezes tinha a
impressão que de acaso não tinham nada.
Passaram bons momentos, trocaram sorrisos e palavras desnorteadas
sem juras de grande amor.
Nos dias que se seguiram a esse primeiro encontro nem sequer
se lembrou dela, mas uns tempos mais tarde voltaram a encontrar-se.
Entregaram-se novamente a confidências e ele até foi capaz de chorar enquanto a
tinha nos braços. Parecia-lhe a companheira ideal, sempre disponível, sempre
capaz de lhe respeitar os estados de alma. Deu por ele a confiar-lhe os
segredos mais bem guardados e os medos melhor escondidos. Ela estava ali, capaz
de o levar do riso às lágrimas sem lhe fazer perguntas e mostrando-se incapaz
de o julgar.
Cristina Gameiro, aqui
Ao fim de algum tempo ela já parecia conhecê-lo melhor que
ninguém e ele tinha a impressão que precisava de a ver mais vezes. Começou a
roubar tempo ao tempo que passava com outros e aos poucos foi-lhe entregando
cada instante livre que lhe sobrava.
Nos primeiros tempos ouviam música, partilhavam experiências
em voz alta e sussurravam sonhos desfeitos e fantasias por visitar. O resto à
volta dele deixou de interessar. Os amigos que os tinham apresentado e com quem
tinham dividido os primeiros encontros foram fazendo as malas e sendo
convidados a sair daquela história que ele quis que fosse só deles.
Deu por ele a precisar dela a cada momento, a ter vontade de
lhe contar cada vitória e cada derrota em que ia tropeçando durante o caminho.
Ela estava ali sempre disponível, atenta, compreensiva, à escuta.
E o mapa de vida foi ficando reduzido a eles os dois. Sem
mais estações nem apeadeiros. Sem mais ninguém entre eles. Como se os dias se
pudessem encher apenas deles e como se ela fosse o amor prometido por quem
tinha esperado.
E foram deixando de precisar de trocar palavras. Foram
deixando de precisar de pretextos para se encontrarem. De repente estavam a
viver juntos, debaixo dos mesmos tectos ou sem nenhum. Ela despertava-lhe,
dominava-lhe e adormecia-lhe os sentidos. Todos.
E ele tinha a impressão de ter deixado de ter medos,
angústias, conflitos, vazios. Sentiu que tinha encontrado a companhia ideal
para dividir o chão que lhe faltava calcar.
De repente eram só os dois e já não fazia nada sem ela. Não
estava sequer certo de ter percebido que ela não lhe era fiel. Mesmo quando
olhava para ela nas mãos de outros a dividir as mesmas coisas e a viver a mesma
história. Sentia-se incapaz de admitir que por ela tinha deixado para trás o
resto do mundo.
E afinal continuava sozinho.
Muito mais.
E os medos acordavam todos os dias ao lado.
Muito mais.
E os sonhos tinham desaparecido quase todos.
Não se sentia capaz de pensar nisso. Não se sentia capaz de
pensar.
Começava a sentir-se traído. Ela que afinal também não lhe
pertencia.
Ia chamar, bem alto, mais uma vez na esperança que ela não o
ouvisse.
"On the
rocks, se faz favor."
E amanhã talvez o resto do mundo voltasse para ele.
Ou ele fosse capaz de o descobrir outra vez.
