sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

"ON THE ROCKS"

Ele estava cada vez mais disposto a nada. Como se os dias fossem quase sempre tão nus como ele se sentia de cada vez que olhava para dentro.
 
Não andava à procura de nada. Estava assim porque tinha percebido que às vezes, tantas, esperamos por coisas erradas. Estava assim por isto e por aquilo, por tudo e por quase nada.
Conheceu-a por um acaso, daqueles acasos que às vezes tinha a impressão que de acaso não tinham nada.
Passaram bons momentos, trocaram sorrisos e palavras desnorteadas sem juras de grande amor.
Nos dias que se seguiram a esse primeiro encontro nem sequer se lembrou dela, mas uns tempos mais tarde voltaram a encontrar-se. Entregaram-se novamente a confidências e ele até foi capaz de chorar enquanto a tinha nos braços. Parecia-lhe a companheira ideal, sempre disponível, sempre capaz de lhe respeitar os estados de alma. Deu por ele a confiar-lhe os segredos mais bem guardados e os medos melhor escondidos. Ela estava ali, capaz de o levar do riso às lágrimas sem lhe fazer perguntas e mostrando-se incapaz de o julgar.
Ao fim de algum tempo ela já parecia conhecê-lo melhor que ninguém e ele tinha a impressão que precisava de a ver mais vezes. Começou a roubar tempo ao tempo que passava com outros e aos poucos foi-lhe entregando cada instante livre que lhe sobrava.
Nos primeiros tempos ouviam música, partilhavam experiências em voz alta e sussurravam sonhos desfeitos e fantasias por visitar. O resto à volta dele deixou de interessar. Os amigos que os tinham apresentado e com quem tinham dividido os primeiros encontros foram fazendo as malas e sendo convidados a sair daquela história que ele quis que fosse só deles.
Deu por ele a precisar dela a cada momento, a ter vontade de lhe contar cada vitória e cada derrota em que ia tropeçando durante o caminho. Ela estava ali sempre disponível, atenta, compreensiva, à escuta.
E o mapa de vida foi ficando reduzido a eles os dois. Sem mais estações nem apeadeiros. Sem mais ninguém entre eles. Como se os dias se pudessem encher apenas deles e como se ela fosse o amor prometido por quem tinha esperado.
E foram deixando de precisar de trocar palavras. Foram deixando de precisar de pretextos para se encontrarem. De repente estavam a viver juntos, debaixo dos mesmos tectos ou sem nenhum. Ela despertava-lhe, dominava-lhe e adormecia-lhe os sentidos. Todos.
E ele tinha a impressão de ter deixado de ter medos, angústias, conflitos, vazios. Sentiu que tinha encontrado a companhia ideal para dividir o chão que lhe faltava calcar.
De repente eram só os dois e já não fazia nada sem ela. Não estava sequer certo de ter percebido que ela não lhe era fiel. Mesmo quando olhava para ela nas mãos de outros a dividir as mesmas coisas e a viver a mesma história. Sentia-se incapaz de admitir que por ela tinha deixado para trás o resto do mundo.
E afinal continuava sozinho.
Muito mais.
E os medos acordavam todos os dias ao lado.
Muito mais.
E os sonhos tinham desaparecido quase todos.
Não se sentia capaz de pensar nisso. Não se sentia capaz de pensar.
Começava a sentir-se traído. Ela que afinal também não lhe pertencia.
Ia chamar, bem alto, mais uma vez na esperança que ela não o ouvisse.
"On the rocks, se faz favor."
E amanhã talvez o resto do mundo voltasse para ele.
Ou ele fosse capaz de o descobrir outra vez.
Cristina Gameiro, aqui