Estávamos em 12 de Maio de 1967, o Benfica tinha acabado de vencer o Belenenses e sagra-se campeão nacional. Na habitual invasão de campo pacífica e para tentar obter alguma recordação, Artur Glória, adepto benfiquista, levou bem mais do que esperava.
«Tive medo que Eusébio me tivesse inutilizado para toda a vida» relata Artur Glória, antigo pugilista e na altura treinador de Fernando Sota. «Deixei que me fotografassem o peito, os seus colegas já o fizeram uma quantidade de vezes mas não percebo porquê que ainda não publicaram a fotografia».
O bom e velho hábito, bolorento e salazarento, da nossa comunicação social de só publicar aquilo que lhe interessa já vem de longe. «E além disso queria que os meus consócios do Benfica vissem o que Eusébio me fez». Eh... não é bonito, não senhor, mas há imagens que se têm de manter, ou esconder, a todo o custo.
«O homem fala com indignação, mas os jornais diziam que pedia desculpas públicas a Eusébio» deve ter sido porque o peito dele magoou de forma brutal a chuteira do Eusébio. «Como é que escreveram uma coisa dessas?!... O Eusébio é que me pediu desculpas, ele é que tinha de fazê-lo!» Como é que é? A comunicação social a alterar a verdade dos factos, beneficiando com isso o Benfica? Não acredito!
«O homem tapa o peito, parece querer esconder a sua grande desilusão. Sofre por pensar que o seu pulmão poderá ter ficado afectado e porque o seu ídolo tem pés de barro que magoam». Finaliza o homem com grande desgosto.
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A 5 de Janeiro de 1977, Eusébio defrontou o Benfica pela primeira e única vez na carreira, ao serviço do Beira-Mar. O Pantera Negra recorda esse dia em entrevista à RTP, que passa esta quarta-feira, às 21 horas. E confessa que não fez tudo o que estava ao seu alcance. Muito longe disso...
"Já tinha avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. 15 minutos antes do jogo fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos".
E assim foi. "Não rematei, não marquei faltas nem grandes penalidades... andava lá no campo só a passar a bola aos outros. E nesse ano o Beira-Mar ganhou ao Sporting e o Benfica foi campeão", recorda.
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"Não me peçam para marcar um penálti, nem um livre. Se for para marcar um
penálti eu mando um pontapé para fora", revelou o ex-futebolista, que acabou por
não ter feito um único remate quando defrontou o Benfica, que viria a sagrar-se
campeão na mesma temporada.
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Ora, se estas declarações são do próprio, o que não se percebe é a razão pela qual o
único jornal desportivo da época noticiou o oposto do sucedido, referindo na sua primeira página da edição do dia seguinte que Eusébio teve mais remates à baliza que toda à equipa adversária.
É por isso que se são naturais as reacções populares e os desejos por si expressos, a quente e carregados de dor, já não parece natural que a Assembleia da República reaja a quente e por força das emoções ainda transbordantes. É suposto a Assembleia da Republica agir friamente, sensatamente, ponderadamente, porque a Assembleia da República não é o poder de rua.
A questão actual, contudo, nem sequer será saber se pessoas como Amália ou Eusébio merecem estar no Panteão Nacional: a questão é saber se a Assembleia da República deverá decidir este tipo de questões a quente, de forma emotiva, com todos e cada um dos partidos a tentar tirar partido das emoções populares, e sem a necessária distância que uma avisada decisão sobre este assunto mereceria. Sob pena de banalização do Panteão, e mesmo das pessoas.
Que hoje o povo queira levar Eusébio para o Panteão, parece-me natural. Que os partidos e os deputados queiram cavalgar apressadamente essa onde emotiva parece que não tem qualquer naturalidade, apenas aproveitamento político. E é triste.
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