terça-feira, 9 de julho de 2013

ERA UMA VEZ...

DUAS LUAS
O senhor Túlio foi ao Brasil de avião

Ele que nunca tinha saído lá da sua aldeia, aventurar-se a uma viagem tamanha era de espantar. Mas o senhor Túlio tinha uma filha no Rio de Janeiro, filha essa que lhe dera uma neta, neta essa que ia a baptizar, baptizado esse a que o senhor Túlio nem por nada podia faltar. 


Na grande cidade do Rio de Janeiro, tudo o espantou: o tamanho dos prédios, a largueza das avenidas, a extensão das praias, a bicheza de gente. 
- É tudo maior do que na minha terra - dizia ele, constantemente. - Até a Lua daqui é mais grada do que a nossa. 

A filha indignava-se: 
- Ó pai, não ande sempre de boca aberta que parece mal e, por favor, não diga que esta Lua é maior do que a lá da aldeia, porque a Lua é só uma. 

O senhor Túlio engolia e calava-se, mas, à cautela, pôs-se a medir aos palmos, de longe, a Lua Cheia sobre o Pão de Açúcar. ?Um palmo bem medido", memorizou ele. 

Quando, com muita pena, teve de voltar para Portugal e regressou à aldeia, não se esqueceu do que matutara. Numa noite de Lua bem redonda, estendeu a palma da mão para o céu e mediu: 
- Um palmo e nem mais um niquito. 

Ficou-se a pensar e concluiu: 
- Ai que tu engordaste, magana, enquanto eu andei lá por fora!


António Torrado e Cristina Malaquias, aqui