"Um nome é suficiente? Não é. Um título também não. Esperar-se-ia muito mais de um romance intitulado Livro. Com expectativas mínimas, seria de supor que um romance que se apresenta como Livro tivesse, ao menos, a honestidade de ser aquilo que anuncia. Livro sugere perigosamente o livro, artigo definido que esta sucessão de páginas, por mais encadernadas, nunca merece. Na melhor das hipóteses é um livro. E triste".
Quando um livro conta o Livro e, a páginas tantas, desdenha do livro que é, a história poderá ser o que for. É simplesmente muito boa. Parte de um livro, inócuo, nunca se chega a saber bem sobre o quê. Pousado num banco, junto à criança do tempo do arroz de quinze que há-de dar à luz ao Livro, tratemo-lo como se fosse amigo de brincadeiras com pombas e palha.
E não, não é rala. É um regresso ao passado muito bem contado para quem cresceu com um pé de cada lado das fronteiras. É Ilídio, filho do padre e abandonado a Josué pau para toda a obra, namorado obscuro de Adelaide, sobrinha de Lubélia. É a viagem forçada de uma, a viagem esperançada do outro, atrás dela, o reencontro atrás da fonte, num Verão de mala de cartão. É o Livro fruto do aperto furtivo e o livro, com passagens de humor. "Se elas se preparavam para fazer um turno, virava jalú, quando elas protestavam, ele ordenava: Tá gola. Elas respondiam: Mafú".
A escrita de José Luís Peixoto embala, leva-nos, também a salto, do Portugal passado para as luzes de Paris. E com simplicidade, destrói as fronteiras. As da terra, mas, sobretudo, as da literatura. "Não têm conta as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te?" Atrevemo-nos a dizer: "Deves".
(Ivete Carneiro)
TÍTULO: Livro
AUTOR: José Luís Peixoto
EDITOR: Quetzal
PREÇO: 17.95 euros
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