sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA - PORQUE O FIM DE SEMANA ESTÁ AÍ


"Um nome é suficiente? Não é. Um título também não. Esperar-se-ia muito mais de um romance intitulado Livro. Com expectativas mínimas, seria de supor que um romance que se apresenta como Livro tivesse, ao menos, a honestidade de ser aquilo que anuncia. Livro sugere perigosamente o livro, artigo definido que esta sucessão de páginas, por mais encadernadas, nunca merece. Na melhor das hipóteses é um livro. E triste".

Quando um livro conta o Livro e, a páginas tantas, desdenha do livro que é, a história poderá ser o que for. É simplesmente muito boa. Parte de um livro, inócuo, nunca se chega a saber bem sobre o quê. Pousado num banco, junto à criança do tempo do arroz de quinze que há-de dar à luz ao Livro, tratemo-lo como se fosse amigo de brincadeiras com pombas e palha. 

Passa pela emigração do Portugal profundo para a França a que se chegava a salto, por amores desencontrados, o correr mal é herdado. Perde-se em livros, com uma história de paixão de substituição, bonita porque iniciada com círculos à volta das palavras do primeiro livro, esse que não se conhece. "gosto". "de". "ti". E acaba no livro escrito pelo escritor que contou a história. "Uma obra rala", diz o Livro do livro. Duas personagens centrais, uma delas nas mãos do leitor.

E não, não é rala. É um regresso ao passado muito bem contado para quem cresceu com um pé de cada lado das fronteiras. É Ilídio, filho do padre e abandonado a Josué pau para toda a obra, namorado obscuro de Adelaide, sobrinha de Lubélia. É a viagem forçada de uma, a viagem esperançada do outro, atrás dela, o reencontro atrás da fonte, num Verão de mala de cartão. É o Livro fruto do aperto furtivo e o livro, com passagens de humor. "Se elas se preparavam para fazer um turno, virava jalú, quando elas protestavam, ele ordenava: Tá gola. Elas respondiam: Mafú".
A escrita de José Luís Peixoto embala, leva-nos, também a salto, do Portugal passado para as luzes de Paris. E com simplicidade, destrói as fronteiras. As da terra, mas, sobretudo, as da literatura. "Não têm conta as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te?" Atrevemo-nos a dizer: "Deves".
(Ivete Carneiro)

TÍTULO: Livro
AUTOR: José Luís Peixoto
EDITOR: Quetzal
PREÇO: 17.95 euros

Retirada daqui