De cócoras perante as apertadas (e naturais) exigências dos
credores, o País vive tempos de angústia e de turbulência política e social.
Decisões canhestras e movimentos sequenciais de apunhalamento de princípios
transformaram-se no caldo ideal para a efervescência da rua e o "abocanhamento"
do Governo de coligação, agora sob tutela.
É legítima a concentração do foco nas projeções de um Orçamento de Estado
talhado para maior empobrecimento e fissura entre classes sociais. Já substituir
uma natural preocupação e capacidade crítica por obsessão pura e simples é
imprudente - e vale a pena desconfiar se tal não serve interesses estratégicos
inconfessados.
Exemplo de como os portugueses não se devem comportar: a não reivindicação de
transparência e aperto do escrutínio dos processos de privatização em curso.
À míngua de alternativas ou por puras questões de cariz ideológico, o País
está a desfazer-se de ativos fundamentais. Em período de vacas magras, o Estado
alienou as suas posições na EDP e na REN. Alguns milhares de milhões colocaram
alguns olhos em bico de forma pouco compreensível. Raros ousam questionar as
alíneas contratuais dos negócios.
Champanhe! Champanhe, foi tudo quanto ficou à
vista de todos.
Os processos de privatização têm, entretanto, novas etapas em marcha - e se
contém matizes diferenciadoras, por não ser possível comparar a venda da TAP com
a da ANA, ou a dos CTT e de parte das Águas de Portugal, há algo comum a todas:
escassez de informação de processos cuja transparência deixa imenso a desejar e
permite levantar suspeitas de conluios de que não se livram "advisers",
escritórios de advogados e o poderio e influência imensa de um ministro virtual
- logo não legitimado - António Borges, o senhor privatizações.
Dá-se de barato que o País está condenado a desfazer-se de ativos, alguns
vendidos ao desbarato; mas é incompreensível tal suceder sem um crivo de
exigência pública para que tais negócios se não processem de forma opaca.
A crise é uma boa razão para o Povo estar concentrado no combate e na
reversão de decisões que lhe vão diretamente aos bolsos. Será, porém, avisado
reservar-se um espaço para a exigência e a pressão sobre os decisores de venda
de património do Estado. E até é de desconfiar se não há uma estratégia para
focar os idadãos numa linha de combate enquanto se fecham negócios noutra
barricada.
Às vezes, o que parece acessório é o essencial.
Retirada daqui