sábado, 16 de julho de 2011

UM ANTIMINISTRO NAS FINANÇAS

Apreciei especialmente duas coisas na primeira prestação pública do ministro das Finanças: a clareza com que meteu na ordem as habituais fontes próximas e até fidedignas das quais vivem os poderes e algumas formas de jornalismo e a paciência de Job na luta contra o sound bite com que os ministros mais mediatizados do anterior Governo quase nos tinham tornado surdos - a tudo que nos cheirasse a explicação política.

A generalidade dos portugueses já estava prestes a habituar--se à ideia de que quem governasse dificilmente seria capaz de nos dizer a verdade. Mais: que da boca dos políticos só poderíamos esperar ouvir sound bites demagógicos ou argumentação ininteligível para não conseguirmos distinguir a verdade da meia verdade, da meia mentira e da mentira completa.

Não conheço o homem de parte nenhuma, muito menos o político, mas consigo pressentir que Vítor Gaspar vai rapidamente fazer os seus inimigos de estimação. Desde logo, entre a classe política ainda dominante, mesmo no interior dos partidos da aliança de Governo, sempre interessada em adoçar a boca aos jornalistas amigos e manter um ambiente promíscuo de agitação e propaganda, propício aos títulos sensacionalistas de uns e aos golpes palacianos de outros.

Com esta aliança e este método construiu-se um modo de vida, para não dizer de negócio, entre partes que deveriam manter-se saudavelmente distantes para melhor servirem o essencial da política e da comunicação social: a democracia pluripartidária.

Ao ter colocado os pontos nos is sobre o que alguma comunicação social relatou a propósito do que Passos Coelho disse, entre quatro paredes, aos seus correligionários, Vítor Gaspar colocou em causa o tal negócio... das fontes. Pior: fê-lo com clareza. Ou seja: o primeiro-ministro não dissera que o desvio do défice é colossal. Entre essas duas palavras que alguma comunicação social decidiu juntar para obter impactantes parangonas anti-Sócrates, Passos Coelho terá proferido algumas outras, querendo o primeiro-ministro significar que os números apurados do défice poderão ser de molde a exigir um colossal esforço de consolidação orçamental.

Parece o mesmo mas só os papalvos é que não descortinam a diferença de medida no rigor da análise e na honestidade das palavras. Ora isto, designadamente a honestidade das palavras, é demasiado importante para deixarmos o assunto entregue a discussões meramente intelectuais. Falar verdade tem de voltar a ser o paradigma, ainda que para isso o discurso não caiba nos ecrãs de alguns telejornais e as verdades não possam ser transformadas em parangonas a berrarem nas capas de alguma imprensa. Para isso, já basta o que basta: as monstruosidades de que também é feita a vida e que ninguém pode esconder em nome do bem maior, o interesse público.

Por tudo isto, também apreciei especialmente o facto de Vítor Gaspar ter tido a coragem de tomar todo o tempo do mundo a tentar explicar tintim por tintim aquilo que todos podíamos intuir, ainda que sem saber muito bem porquê: volta a ser a classe média a pagar os erros e até os dislates da classe política.

Manuel Tavares, aqui