domingo, 10 de julho de 2011

RATO-TOUPEIRA-NÚ: UM BICHO COM SETE VIDAS QUE NÃO MORRE DE CANCRO

Qual é coisa qual é ela que não tem pêlo, vive sete vezes mais do que seria suposto, é um mamífero e não tem cancro nem as demais doenças do envelhecimento, é cego, frio e insensível à dor

Apostamos que só acertou porque a resposta está no título. O rato-toupeira-nu (ou pelado, porque a tradução para português ainda não é certa) é uma das bizarrias da natureza que mais tem entusiasmado os cientistas do envelhecimento. João Pedro de Magalhães, investigador português instalado há três anos na Universidade de Liverpool, liderou a equipa que esta semana anunciou a descodificação da sequência do genoma desta espécie nativa do Corno de África. Um mamífero que vive como as abelhas e formigas. Ou seja: elege uma rainha e esta fêmea é a única que tem direito a reproduzir-se.

Ao todo são três gigabytes de informação genética que poderão acelerar a investigação em biomedicina: é que por se tratar de um roedor, os investigadores acreditam que será mais fácil encontrar os genes por trás da sua espantosa longevidade (o mais velho viveu 31 anos) e da resistência ao cancro e procurar medicamentos que funcionem.

Para já ainda não começaram a desvendar os segredos biológicos da espécie, calculando-se que muitas das características únicas resultem da adaptação à vida subterrânea. Mas os investigadores passam a ter à sua disposição a sequência do genoma, ou seja, uma disposição dos cerca de 20 mil genes e 3 mil milhões de pares de bases - estrutura semelhante à humana - e assim poderão direccionar melhor os trabalhos em laboratórios e identificar genes específicos.

João Pedro de Magalhães explica ao i que o animal, enquanto modelo de laboratório, acaba por ser revolucionário em dois sentidos: por um lado, mais do que estudar modelos de doenças humanas (como se faz com que os ratinhos que são manipulados geneticamente para estudar o desenvolvimento de Alzheimer em menos tempo do que seria preciso em seres humanos) permite estudar a resistência a estas doenças, uma vez que parece ser altamente imune a tudo o que sejam males do envelhecimento - nunca foi descrito um caso de cancro.

Por outro lado, espera-se um trabalho difícil, mas mais rápido: "Os chimpanzés e os humanos, que também têm o genoma sequenciado, são excepções em termos de longevidade. Mas até aqui não conseguimos encontrar os genes que os fazem viver mais tempo e também não temos como testar eventuais genes candidatos: não se pode propriamente testar genes de chimpanzés em ratinhos, a probabilidade das coisas correrem mal é muito maior." Ora os genes candidatos a prolongar a vida humana, com menos doenças, que venham a ser encontrados na informação genética do rato- -toupeira poderão ser estudados em ratinhos, ao mesmo tempo que os investigadores poderão confrontar as descobertas que façam sobre mecanismos que desencadeiam Alzheimer ou cancro nestes modelos animais mais banalizados com os que permitem a resistência nesta espécie. "Poderemos pegar nesse conhecimento para fazer com que os seres humanos vivam mais tempo."

Nascido em África Agora que o rato-toupeira-nu está mais perto de ficar famoso, convém tratar da biografia. A espécie Heterocephalus glaber foi descrita pela primeira vez em 1842 pelo naturalista alemão Eduard Rüppell, mas só há 40 anos foi identificado como objecto de estudo científico pela investigadora Jennifer Jarvis, hoje na Universidade da Cidade do Cabo, depois de a equipa de exploradores que liderava ter capturado os primeiros espécimes entre as populações espalhadas por Somália, Quénia e Etiópia. Alguns dos animais foram parar à Universidade do Texas, em San Antonio, onde a cientista Rochelle Buffenstein (que colaborou na sequência) criou entretanto uma colónia com mais de 1600 animais.

Nos últimos anos, quando os primeiros animais começaram a ultrapassar os 20 anos de idade (os ratinhos vivem até quatro) os cientistas decidiram começar a tentar perceber o que estaria errado (ou potencialmente certo para quem quer viver mais.) É nesse ponto que estão, explica João Pedro de Magalhães. O aspecto que mais o fascina é o facto de nas cerca de dez colónias que já existem nos laboratórios de todo o mundo nunca ter sido detectado um caso de cancro. "É único, não há nenhum mamífero que tenha tanta resistência." E mesmos os cientistas que já tentaram induzir-lhes a doença ainda não anunciaram ter conseguido. A outros investigadores interessa sobretudo perceber como é que começaram a viver em regime de colmeia, com fêmeas obreiras e uma rainha que fisiologicamente não apresenta grandes diferenças, como acontece no caso das abelhas e das formigas. Há ainda outra curiosidade: se nos insectos as rainhas parecem viver mais tempo, a rainha rato-toupeira vive tanto como as súbditas e pode ser mesmo substituída caso apareça uma candidata mais forte, uma mistura entre abelha e uma versão feminina do macho alfa das alcateias.

Mas o grande mistério é saber de que é que morrem estes animais. Alguns parecem desenvolver doenças cardíacas e outros sucumbem a dentadas da rainha (convém dizer que são animais "mauzinhos", nota o cientista português). A maioria morre de velhice, mas não aparenta ter doenças de envelhecimento. Mesmo em termos de aspecto mantêm-se na flor da idade (se apreciar "salsichas dentes-de-sabre", como os descreve Buffenstein) até aos 25 anos. "Não dá para distinguir um com dois anos e outro com dez. Só mais tarde."
 
Retirada daqui

?