Andavam os portugueses ainda flauteando no meio da crise, sem interiorizarem a necessidade de sacrifícios, tão convencidos como Sócrates de um milagre, mas Passos Coelho receitou tratamento de choque, para além do memorando da Troika.
Uma das medidas de combate virá em Dezembro, com a redução do subsídio de Natal para pouco mais de metade. A diferença entre o salário mínimo, bem curto, (845 euros) e o salário usufruído será arrecadada pelo Fisco. Isto é, pela primeira vez, há alguma justiça e bom senso.
Os mais desfavorecidos que andam sempre na boca de Jerónimo, Louçã e Carvalho da Silva, vão receber por inteiro, enquanto serão penalizados os que têm ordenados superiores, incluindo os mais afortunados e ricos (empresários de topo e administradores privados e públicos, etc,) que vão, finalmente, ajudar a pagar a crise.
Também os reformados vão entrar nesta lista de sacrificados. Esperamos que Cavaco, Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes e tantos outros reformados de luxo também entrem para este “peditório”. A esse nível, funde mais. Faltam ainda detalhes, mas somos contra excepções.
É verdade que este imposto extraordinário não andou no discurso da campanha do PSD, mas andou nas conversas de Passos Coelho com Catroga. Simplesmente, o futuro PM não tinha obrigação de saber ou adivinhar o que andava escondido. E o que andava escondido era a derrapagem grave do défice para mais 1,8, nos primeiros três meses do ano, quando era suposto que o governo socialista estivesse a dar conta do recado.
Apanhado de surpresa pelo anúncio do INE, logo avançou com esta medida desagradável. Antes que fosse tarde. Para evitar mais pacotes no futuro, alegou. Temos algumas dúvidas quanto a isso, mas vamos ter alguma esperança. Desde que o povo veja resultados finais, aceita-se melhor, dói menos. Ainda que não haja ninguém que goste que lhe vão aos bolsos.
Armor Pires Mota, no 'Jornal da Bairrada' de 7 de Julho de 2011.