Há tempos, Pacheco Pereira confessava-se membro de uma espécie em vias de
extinção no PSD: os sociais-democratas.
Os sorrisos que então provocou podem
denunciar algum nervoso. Porque o risco de extinção dos verdadeiros
sociais--democratas, se nunca foi um problema para o PSD, é hoje o maior
problema de identidade do Partido Socialista.
Quando a direção do PS exibiu
convicção e entusiasmo na aceitação da proposta da direita de que Portugal fosse
o primeiro país a aprovar o Pacto Orçamental, foi esse afastamento radical da
matriz fundadora social- -democrata que se evidenciou plenamente.
O blairismo, replicado por Schroeder na
Alemanha ou por Guterres em Portugal, esterilizou as formações
sociais-democratas como alternativas políticas efetivas e converteu--as aos
cânones do centrismo político, do ponto de vista ideológico e do ponto de vista
programático. E essa conversão não foi repudiada desde então.
É da consciência do carácter nevrálgico desta realidade e das suas
consequências que tem de partir todo o esforço de construção de uma alternativa
política em Portugal e na Europa. A questão crucial que esse esforço tem de
enfrentar é a da opção reiterada do Partido Socialista por se assumir, acima de
tudo, como integrante de um arco da governação que baliza a política prática com
limites caros à direita.
Se há fator de bloqueio à esquerda que dificulta uma
governação alternativa, em Portugal e na Europa, é essa opção das direções dos
partidos socialistas, em Portugal como na Europa, por uma governação pautada
pelos critérios de "estabilidade", "responsabilidade" e de "razoabilidade"
partilhados serenamente com a direita.
Na construção de propostas políticas não
vale a dicotomia entre puros e impuros, entre anjos e diabos, é bem verdade. Mas
distribuir indiferenciadamente por toda a esquerda a responsabilidade das
dificuldade de construção de uma alternativa - ou inclusivamente focá-la
privilegiadamente na esquerda à esquerda do PS - é algo que distorce a
realidade.
Não foi a esquerda que empurrou o Partido Socialista para a aprovação
do Pacto Orçamental, para a aprovação do Código do Trabalho, para a escolha da
diminuição do subsídio de desemprego como medida emblemática do PEC 1, ou para a
inclusão da privatização dos CTT no PEC 4. O seu a seu dono. Desculpabilizar
deste modo as lideranças socialistas e responsabilizar a esquerda à esquerda do
PS por aquilo que é uma escolha consciente e livre daquelas lideranças é algo
que só ajuda a que tudo fique na mesma.
Todos os sectarismos e paroquialismos são condenáveis diante do imperativo da
construção de uma política diferente para o País e para a Europa. Por isso
mesmo, nunca uma iniciativa de esquerda vinda do Partido Socialista, no Governo
ou na oposição, deixou de fazer caminho por não ter o apoio das esquerdas.
Se o
que decidisse o desbloqueamento da alternativa necessária fosse a
disponibilidade para governar, a questão seria bem simples, portanto. Mas não:
aquilo que verdadeiramente bloqueia uma alternativa de governo à esquerda não é
a disponibilidade, ou falta dela, para governar. São as escolhas para a
governação de Portugal e da Europa. É a clarificação disso e das suas condições
de viabilidade que se exige.
José Manuel Pureza, aqui
