1-Segundo o Presidente da República, para que possamos ter acesso a dinheiro
emprestado a juros razoáveis é essencial que a conclusão do programa de
ajustamento seja feita com sucesso.
Deixemos agora de lado os sucessos que foram
o desemprego, a emigração em massa, a deterioração de serviços essenciais, as
falências, a inexistência de reformas estruturais, o reforço do papel do Estado
nos principais sectores de atividade, o aumento da dívida, o confisco fiscal, o
assalto aos reformados, para que não fosse cumprido um único objectivo
orçamental.
Com a declaração de falhanço da estratégia de Gaspar, feita pelo próprio, era
preciso outra. Chegou há pouco tempo, foi inventada pelo irrevogável ministro, e
o Presidente da República aderiu entusiasticamente.
Ora, para que esta estratégia resulte num fantástico sucesso, leia--se
chegarmos a Maio sem segundo resgate, é preciso, segundo Cavaco Silva,
salvaguardar o Orçamento do Estado, esse documento da "maior relevância".
Esqueçamos também que a probabilidade de Paulo Portas respeitar a sua palavra é
maior do que chegarmos ao fim de 2014 com 4% de défice, ou seja, estamos perante
um orçamento ficcional. Finjamos que não sabemos que não haverá segundo resgate
em nenhuma circunstância, não por obra e graça do Governo ou do genial programa
de ajustamento, mas porque pura e simplesmente a Europa jamais assumiria o seu
próprio fracasso.
Exige-se, porém, a "máxima ponderação e bom senso, um sentido patriótico de
responsabilidade", a todos os agentes.
Que o Presidente ache que eu ou qualquer outro agente, cidadão ou
instituição, é um irresponsável, um destituído de bom senso e sem amor à pátria,
se pensar que este orçamento é péssimo para o País e que nem sequer vai atingir
os objectivos a que se propõe, vá que não vá. Não é muito simpático ser
insultado pelo nosso máximo representante, mas, francamente, Cavaco não nos tem
feito outra coisa e à nossa inteligência nos últimos anos.
E se, por hipótese, o Tribunal Constitucional declarar inconstitucionais
partes do orçamento, devemos entender que são os juízes que nos estão a atirar
para a "continuação da política de austeridade e a deterioração da credibilidade
e da imagem de Portugal" inerentes, segundo o Presidente, a um segundo resgate?
Será que os juízes irão agir com ponderação, bom senso e amor à pátria? Cuidado
juízes, segundo o Presidente pode haver um Miguel Vasconcelos em cada um de vós.
Quererá o Presidente da República dizer que a Constituição se deve sujeitar à
definição de bom senso feita por ele próprio?
O Presidente acha que quem não comprar a estratégia do relógio não é
patriota. Que quem não pensar como ele não está "à altura do momento crucial"
que vivemos. Não falta gente que acha que é ele que não está à altura do
momento, que é ele que não mostra bom senso, ponderação e sentido patriótico de
responsabilidade. Eu sou um deles.
2-É muito difícil perceber como é que o Presidente da República Portuguesa
não fala da Europa e dos problemas europeus, quando fala aos portugueses. E logo
numa ocasião em que (enfim...) define metas, aborda assuntos que define como
essenciais e fala em compromissos e consensos.
A decisão de não falar da Europa pode ter uma das seguintes razões: ou Cavaco
Silva pensa que podemos resolver todos os nossos problemas sem que os decisores
europeus sejam tidos ou achados, ou pura e simplesmente não sabe o que há-de
dizer ou acha que está tudo certo na política europeia e, logo, não há nada a
acrescentar. Convenhamos, nenhuma das opções é de modo a deixar o cidadão
descansado.
Mas, o que mais assusta é sabermos que o nosso representante pode
não perceber que não há solução para a nossa situação sem que a Europa mude de
políticas e que, se não as mudar, iremos regredir economicamente e sobretudo
socialmente várias décadas. Ou então sairmos do euro e da Europa que ainda nos
faria regredir mais.
O Presidente que em Florença, em Outubro de 2011, tinha uma ideia para a
Europa, o Presidente que ainda o ano passado dizia que tínhamos argumentos para
exigir o apoio dos nossos parceiros europeus, foi tomado pelo provinciano Cavaco
Silva. É preciso ter azar.
Pedro Marques Lopes, aqui
