terça-feira, 30 de abril de 2013

ERA UMA VEZ...

OLHOS VERDES
Esta história passou-se na Índia, há muito tempo

Certo rajá tinha dois filhos, dois filhos já homens, mas muito diferentes entre eles. Um, o mais velho, era tão feio por dentro como por fora. Para condizer, casara-se com uma feiticeira, uma peste. 


O mais novo, ainda solteiro, não era feio nem bonito, mas, conhecendo-o melhor, percebia-se que a beleza dele estava toda concentrada no coração. E tinha olhos verdes. 

O rei ou rajá, encarando os dois filhos e ajuizando sobre o que deles sabia, decidiu: 
- Quem vai herdar o meu reino será o meu filho mais novo, que tem qualidade para ser um bom rei. 

A feiticeira, casada com o mais velho, não gostou da escolha do sogro e maquinou um feitiço para afastar o cunhado rival. Convidou-o a tomar chá na varanda dos seus aposentos e misturou uma poção mágica nas folhas da chaleira. 

O bom príncipe bebeu e transformou-se em peixe. 
- Vai nadar para o meio dos teus irmãos - disse a bruxa, atirando-o ao rio, que corria debaixo da varanda do palácio, e largando uma daquelas gargalhadas arrepiantes, que só as bruxas sabem dar: - Ah! Ah! Ah! 

Não é assim, nem pouco mais ou menos, mas como não sou bruxa... 

O príncipe, transformado em peixe, nadou rio abaixo. Deste rio passou para outro maior, que se comunicava com outro imenso, tão largo como um braço de mar. 

Foi pescado. 

A rede que o pescou, de cambulhada com outros peixes, era puxada pelos servos de outro rajá, rei de outro reino. 

Muitos peixes morreram antes de chegar ao palácio. Um dos que sobreviveu e que chamou a atenção do cozinheiro foi o bom do peixe-príncipe. 
- É diferente dos outros - disse o cozinheiro. - Tem olhos verdes e corpo dourado. Vou oferecê-lo à princesa. 

Ficou num aquário, à cabeceira da cama da princesa, que logo se encantou por ele. 
- Gostava tanto de ser peixe, para nadar ao teu lado - segredou-lhe, um dia, a princesa. 
- Pois eu gostava de ser homem, para poder estar ao teu lado - segredou-lhe o peixe. 

Tamanha vontade dos dois tinha de resultar. O amor é uma grande magia. 

A jovem princesa começou por surpreender-se com as falas de um peixe de olhos verdes. Mais razão tinha para estranhar, quando o peixe se transformou em homem. Mas não estranhou. Os olhos verdes eram os mesmos... 

Claro que daí a um tempo casaram. 

Com ajuda dos exércitos do sogro, o príncipe de olhos verdes recuperou o reino, aprisionou a cunhada e o irmão e reinou feliz em companhia da princesa, rodeados por principezinhos de olhos verdes e de olhos castanhos. Não sei se disse que a princesa tinha olhos profundamente castanhos. Belíssimos. 

Nestas histórias fica sempre muita coisa por contar...

António Torrado e Cristina Malaquias, aqui