Logo no início da Grande Depressão, lembro-me de ouvir dizer que não éramos
gregos, nem os nossos bancos eram como os irlandeses, nem éramos espanhóis ou
italianos - cada um com neuroses fáceis de rotular.
Agora não somos certamente
cipriotas ou sequer malteses, outros infernos fiscais à espera que o martelo
bata. Na verdade, somos cada vez menos portugueses. A nossa nacionalidade foi
penhorada.
Tenho um feeling de que, perante tanto desespero e raiva, haja cada vez mais gente por aqui que gostaria de ser outra coisa qualquer noutro sítio qualquer. Não preciso apontar país nenhum em concreto para onde estas pessoas gostariam de fugir.
Tenho um feeling de que, perante tanto desespero e raiva, haja cada vez mais gente por aqui que gostaria de ser outra coisa qualquer noutro sítio qualquer. Não preciso apontar país nenhum em concreto para onde estas pessoas gostariam de fugir.
Mas sei que as pessoas e as empresas desses países com rating AAA têm
hoje um valor facial - não um valor intrínseco - maior do que a subespécie
cipriota ou grega. Somos lixo, não é?, embora eles (sempre eles) sejam piores.
Que alívio...
A tragédia destas últimas semanas é essa: tornou-se claro que a ideia
política que ainda move a moeda única já não é isolar o risco financeiro - a
falência de um banco qualquer - do risco soberano, protegendo todos os 17
países. Esse grande objetivo europeu passou para segundo plano.
O impulso da
Zona Euro agora é mais barato e reles: separar o risco dos países do Norte do
perigo de implosão dos territórios do Sul - para que a conta fique mais barata.
A doutrina é só uma: levantar um cordão sanitário. Nas palavras do supremo
Schäuble: só os países solventes podem dizer que têm bancos solventes.
Mas não se julgue que Schäuble está sozinho. O ministro das Finanças
holandês, líder do Eurogrupo, disse o mesmo. Aliás, aqui sobressai um detalhe
relevante para enquadrarmos este novo capítulo da crise europeia: o ministro
holandês é socialista, é membro do Partido Trabalhista, o que confirma que esta
não é só uma questão ideológica - liberais de um lado, socialistas do outro.
Hoje é cada vez mais uma disputa territorial.
É um conflito entre nações que desconfiam umas das outras, algumas até se odeiam. É por essa razão que um euro cipriota é oficialmente um euro menor: está em prisão preventiva, só consegue sair para a civilização em ínfimas porções de mil euricos. O resto tem de ir escondido nas truces.
É um conflito entre nações que desconfiam umas das outras, algumas até se odeiam. É por essa razão que um euro cipriota é oficialmente um euro menor: está em prisão preventiva, só consegue sair para a civilização em ínfimas porções de mil euricos. O resto tem de ir escondido nas truces.
Chipre, também com culpas próprias, foi subitamente condenado a uma espécie
de gueto financeiro que transformou os cipriotas em prisioneiros a cumprir uma
pena indefinida. Talvez uma semana, quem sabe um ano. Têm de sobreviver a
prestações e sem garantias de nada: são corridos do euro ou ficam? Na realidade,
são apenas filhos de um país menor.
É interessante que, primeiro, o Eurogrupo
tenha procurado impor uma ilegalidade grosseira - a captura dos depósitos abaixo
dos cem mil euros - e agora cometa outra: limita excecionalmente a circulação de
capitais, o que na prática implica restringir a liberdade das pessoas. Assim
estamos. Reféns de uma moeda. A moeda má.
André Macedo, aqui
