Não há cidadão minimamente interessado na coisa pública que não esteja
preocupado com a saúde do nosso sistema político.
Só alguém muito distraído ou
desinteressado pode ignorar que os principais partidos estão reféns de caciques
sem ideologia ou pensamento político e que parte importante dos candidatos a
cargos políticos são escolhidos não em função das suas qualidades mas da cega
fidelidade a quem manda no partido.
Não é difícil prever que os partidos não se auto-regenerarão. Talvez o pessimismo dos tempos me tenha também afectado, mas não acredito que o monstro abdique do seu próprio poder. Ou então trocará um bocadinho por ainda mais. É nisso que as máquinas partidárias se transformaram: pensam só e apenas no poder.
Não é difícil prever que os partidos não se auto-regenerarão. Talvez o pessimismo dos tempos me tenha também afectado, mas não acredito que o monstro abdique do seu próprio poder. Ou então trocará um bocadinho por ainda mais. É nisso que as máquinas partidárias se transformaram: pensam só e apenas no poder.
Também poucos desconhecerão a cada vez menor capacidade da vida política
atrair os melhores e os mais capazes de nós.
As razões são muitas, desde logo o bloqueio que as máquinas partidárias
realizam actuando como filtro: estando dominadas por medíocres, dificilmente
deixam não medíocres crescer dentro da estrutura. Mas há outras e igualmente
importantes: o discurso populista contra os políticos, o nível de devassa da
vida privada a que ficam sujeitos e as baixas remunerações que auferem.
Sim, é
verdade. É absolutamente inacreditável que um cidadão que gere uma cidade como
Lisboa ou como o Porto traga menos de 3000 euros para casa ao fim do mês.
Ninguém, sendo honesto, vai para a política com o objectivo de ficar rico, mas
há limites minimamente justos de remuneração face ao trabalho e à
responsabilidade.
A semana passada, um conjunto de cidadãos divulgou um documento intitulado
"manifesto pela democratização do regime" com algumas ideias para a reforma do
sistema político. Não cabe aqui a análise das suas propostas. Algumas concretas,
mas outras demasiado genéricas ou mesmo muito vagas. O fundamental é salientar a
importância da acção, a vontade de participar, a constatação de que a comunidade
ainda não foi vencida pela apatia.
Outros manifestos se seguirão. Alguns, infelizmente, com uma linha populista,
aqueles que serão contra os partidos, contra a política e contra os políticos,
ou seja, contra a democracia. Outros, espero muitos, com objectivos sérios e
procurando reforçar e reformar a democracia.
O grande problema que vejo em todos estes documentos, nomeadamente no
referido, já apresentados e por apresentar (sim, é um palpite), é a tentação, ou
melhor, o profundo erro de confundir o actual estado económico do País com os
problemas do nosso sistema político, nomeadamente o papel dos partidos.
É que
vamos ver se nos entendemos: não foi por défice de representação que foram
cometidos os erros na governação; as raízes da nossa crise até podem estar
relacionadas com problemas de representação política, mas não local e sim
europeia; as políticas de que estamos a ser vítimas não são consequência dos
problemas dos nossos principais partidos, estão muito para além deles; os nossos
défices estruturais históricos, a nossa estrutura económica não foi propriamente
criada pela incompetência da actual classe política.
Mais, quer queiramos quer não, é muito aos nossos políticos que devemos o
autêntico milagre de desenvolvimento social e político que se deu nos últimos
trinta anos.
O que não surpreende de todo é o facto de aparentemente a comunidade se
preocupar com a saúde da democracia e do sistema político no momento em que a
recessão económica e o desemprego grassam. Sou suficientemente antigo para me
lembrar do último estertor cavaquista no Governo, dos governos socialistas e dos
amigos em tudo o que era administração de empresas públicas e afins. Sei também
quem são os políticos sobre quem impendem acusações graves de corrupção e pior.
São do tempo em que tudo corria bem, não é?
Pois, tudo corre bem na democracia quando há pão e emprego, mas não há fé na
democracia que resista à sua falta. E só nessa altura é que se põe tudo em
causa.
Claro que temos de lutar por todos os meios para melhorar a nossa democracia,
convém é não confundirmos os seus actuais graves problemas com os males que
estamos a passar e metê-los todos no mesmo saco. Nem ajudamos a reformar o
sistema nem ajudamos a encontrar soluções para a crise económica e social que
atravessamos.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo
Ortográfico
Pedro Marques Lopes, aqui
