
A versão de Sócrates agitou o meio político.
Foi quase uma hora e meia da entrevista mais vista desde 1994 na RTP. Mais de um milhão e meio de espectadores a ouvirem José Sócrates decompor uma “narrativa” (a palavra mais usada) que diz ter imperado, sem oposição, nos dois anos do seu silêncio, e compor a sua própria - que o i analisa aqui ao lado. E a primeira aparição de Sócrates já teve consequências políticas: Passos Coelho saiu em defesa de Cavaco Silva.
Já de Belém, nem uma palavra. O único registo do dia vindo de Cavaco foi através do Facebook, logo de manhã, mas ignorando Sócrates. Cavaco elencou as visitas que fez recentemente a empresas criadoras de emprego. E repetiu o que tinha dito antes da entrevista: “É estimulando, apoiando e dando visibilidade a empresas como estas, e não através de uma retórica inflamada e vazia de conteúdo que se defende o interesse nacional.”
No parlamento, a entrevista foi o tema preferido da bancada do PSD. Várias vezes os deputados social-democratas aproveitaram para utilizar a entrevista pressionando o PS para falar sobre o assunto. Luís Campos Ferreira quis saber o que “o PS de Seguro pensa da narrativa de José Sócrates”, acusando o partido de “ter vergonha do que Sócrates disse na televisão. Foge de José Sócrates como quem foge do Diabo”. No PS, António Braga respondeu que Sócrates esteve “em grande forma e isso é que incomodou” o PSD. Mas a posição oficial socialista veio pela voz do vice-presidente do grupo parlamentar José Junqueiro, para negar que o PS tenha sido criticado (quando Sócrates disse que a “narrativa única” sobre o seu governo “não teve oposição”). Junqueiro garante que o que o ex-líder fez foi “um elogio ao PS, dizendo que faz o que deve, com nobreza, olhando para o futuro”.
“Foi em 2012 que a dívida mais subiu, quase 30 pontos”
Manipulação. Quanto subiu a dívida além do previsto na versão assinada por Sócrates? Menos de 15 pontos. Destes, mais de 2 devem-se à inclusão de ex-Scut e dos custos do BPN no défice de 2011 e 2012. O que sobra explica-se em boa parte pelo efeito no PIB da recessão. Sócrates usa o rácio de dívida (sobre o PIB) para seu benefício – em valor, contudo, a subida na dívida pública na era Sócrates (com um PIB mais amigo) foi idêntica à de Passos.
“O PR promoveu quem planeou essa conspiração”
Fernando Lima É o nome do assessor que terá desencadeado o caso das suspeitas de escutas a Belém pelo governo no Verão de 2009. Em Março de 2011, Lima foi promovido a assessor político do Presidente. Na altura do caso era assessor de imprensa e acabou por sair da linha da frente. Ontem, no PS, José Junqueiro veio chamar-lhe “patife”.
“Havia a ideia de que os problemas eram só culpa do governo”
E a Europa? Sócrates argumenta que em Março de 2011 vingava a ideia de que a culpa dos problemas do país era em exclusivo do governo. Na parte que cabe aos desequilíbrios internos a responsabilidade é partilhada com anteriores governos. Há uma outra parte relevante – o contexto europeu da crise, fora do controlo do país (como está a aprender Passos).
“Em 2007 tem crescimento de 2,4%, o maior da década”
E o défice externo? Sócrates puxou dos números do PIB e apontou que antes do impacto da crise financeira mundial de 2008 a economia estava a crescer. É verdade que o PIB português cresceu em termos reais 2,4% em 2007 e que esta foi a maior variação na década iniciada em 2001. Por explicar ficou o facto de esse crescimento – assente em boa parte no bom desempenho do consumo privado (+1,5%) e do investimento (+3,2%) – se inserir num modelo económico (tolerado na Europa) que produzia défices externos anuais entre 8% e 10%. Em 2007 foi
de 8,6%.
“Nem nos OE nem nos PEC os governos informam os PR”
Nem por isso Por partes: o segundo “embuste” de Sócrates é que foi o anterior governo a pedir ajuda externa – a crise política, desencadeada pelo chumbo do PEC IV, fez vir a troika. Mas porque não houve acordo neste pacote? Sócrates tinha levado as medidas a Bruxelas sem as apresentar à oposição e a Cavaco. Nasceu aqui a acusação de “falta de lealdade institucional”, mas Sócrates nega ter escondido o PEC IV e diz que não tinha de o apresentar previamente. A verdade é que não há obrigação formal, mas os anteriores pacotes de austeridade tinham tido negociação prévia e sido tema nas reuniões semanais em Belém. No PEC IV, Sócrates fugiu a esta prática.
No Memorando não estava o corte do 13.º ou 14.º mês”
Contam as metas. Sócrates diz que o memorando que assinou foi desfigurado. É verdade que
o programa sofreu várias alterações. E é verdade que a forma de cumprimento é em primeiro lugar da autoria do actual governo. Contudo, o programa não é um menu fechado – é um meio para cumprir metas e pressupõe alterações. A versão inicial (com metas mais ambiciosas) tinha poucas medidas concretas – era ao governo seguinte, que podia ter sido de Sócrates, que cabia dar as más notícias e reagir com mais medidas às inevitáveis derrapagens no défice (inerentes à tentativa de domar as contas públicas e as externas em simultâneo).
“Em 2009 o défice teve aumento semelhante ao de outros países”
“Muito semelhante”. O défice em 2009 aumentou para 10,2% (depois de várias revisões que tiraram lama de baixo do tapete), o que deixa Portugal na divisão dos países mais frágeis do euro em termos de degradação orçamental – e longe dos países mais sólidos. A decisão europeia pró-estímulo tinha de ser adaptada em função das circunstâncias de cada país.
“Nunca tive acções”
E o Benfica? José Sócrates teve 500 acções da Benfica SAD e até chegou a declará-las. A partir de 2011, os políticos deixaram de ter de declarar este tipo de títulos.
Retirada daqui