quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DOIS MISTÉRIOS


Não há cidadão defensor do Estado de direito que rejubile com o tipo de situação por que passou esta semana Miguel Relvas

Por muito que discorde do ministro, por muito que o julgue incompetente, por muito que o ache o símbolo de tudo o que está mal na politica portuguesa, não há com certeza muita gente que goste de ver um ministro da República silenciado, insultado e enxovalhado. Mesmo sendo Miguel Relvas. 


Mesmo tendo a noção de que o que se passou com ele não se passaria com outro qualquer ministro. É alguém que foi escolhido por quem tem um mandato popular e merece, principalmente por isso, ser respeitado e ouvido.

Foi pena, aliás, não o termos mais uma vez escutado. É que uma das melhores formas de percebermos a sua incapacidade para o desempenho das suas funções é ouvi-lo falar. Lá teríamos umas pérolas sobre o regresso dos jovens à agricultura ou uns comentários infelicíssimos sobre o desemprego e a sua falta de sono. Talvez até uma daquelas frases sobre a simplicidade da procura constante de conhecimento. Seria, aliás, um desafio curioso tentar descobrir nos seus inúmeros discursos e intervenções públicas uma ideia política, uma visão de Estado, uma frase que não fosse um lugar-comum ou uma citação para enfeitar.

Sendo sobre comunicação social o discurso que ia fazer, talvez o objectivo fosse explicar uma nova ideia para a RTP. Seria a nona ou a décima, mas se calhar era desta que acertava. E como tudo se passava numa universidade, talvez nos esclarecesse sobre o método de obtenção duma licenciatura fazendo apenas uma disciplina, frequentando quatro ou cinco e sacando vinte e tal equivalências. Estou convencido de que os alunos e os pais que se desunham a trabalhar para dar educação aos filhos adorariam saber o truque.

Miguel Relvas é um dos dois grandes mistérios da política portuguesa.

Como diabo um ministro que é suposto conduzir politicamente o Governo se mostra completamente incapaz de o fazer, que exibe uma incompetência gritante no momento de fazer a comunicação do Executivo, que tratou o dossier RTP duma forma desastrosa, que inventou uma coisa chamada Impulso Jovem em que se gastou uma fortuna sem qualquer resultado, que faz uma reforma autárquica que é um embuste e que pode ser tudo menos uma reforma, que mentiu descaradamente a uma comissão parlamentar, que é desprezado pelos portugueses, se mantém no Governo?

O outro é o mistério Gaspar. Como será possível manter um ministro das Finanças que dois meses depois de fazer um orçamento baseado em determinados pressupostos nos vem dizer que afinal estão todos errados? Que nos vem dizer que a recessão é o dobro da prevista. Que só em 2012 fez três orçamentos enganando-se em todos e que já vamos em Fevereiro e aí vão dois. Que tem o descaramento, depois de nos ter dito que o mal era todo nosso, da nossa preguiça, de termos vivido acima das nossas possibilidades, do anterior Governo, que a culpa afinal é da Europa. 

E então onde pára o discurso do nem mais tempo nem mais dinheiro? Deixe-me adivinhar: era para aumentar a credibilidade. Sim, senhor, a melhor maneira de aumentar a credibilidade é passar um ano a dizer uma coisa e depois desdizê-la completamente... Que terá Gaspar a dizer ás pessoas que repetiram e voltaram a repetir que todas as previsões se baseavam em ficções e que a política seguida estava completamente errada? Descobriu agora que é preciso crescimento, foi?

Entretanto lançaram-se umas centenas de milhares de pessoas para o desemprego, faliram-se milhares de empresas, destruíram-se sectores de actividade por inteiro. Só faltou mesmo dizer: desculpem qualquer coisinha.

A verdade é que não há mistério nenhum. Passos Coelho não convive ou deixa de conviver bem com a incompetência de Relvas e Gaspar, Passos Coelho é o paladino da incompetência dos dois ministros.

O primeiro-ministro não existe sem Relvas e Gaspar e estes não existiriam sem ele. Pedir a demissão de Relvas ou Gaspar é pedir a demissão de Passos Coelho. E é por isso que nem um nem outro são remodeláveis. Passos Coelho assim o quis. 

E Portugal é que os aguenta.

Pedro Marques Lopes, aqui