Não estava muita gente para ser atendida; a bem dizer, apenas uma senhora à minha frente.
Muito sociável, comunicativa, enfim falava pelos cotovelos. Enquanto esperava pela minha vez, ela começou a falar comigo. Perguntou-me as horas. Duas menos dez, disse eu. Disse-lhe então que já ali estava há uns minutos e aproveitei para lhe fazer uma confidência: disse-lhe que a semana passada tinha feito pela primeira vez um teste de gravidez, e que tinha sido uma trabalheira.
Comecei
por lhe dizer que tinha andado meses para conseguir acertar com a porcaria do
teste. Bem me tinha dito uma amiga que aquilo era uma chatice. Dizia ela que
comprou um, mas que devia ser duma marca foleira, porque só dizia lá para ver
se tinha uns risquinhos cor-de-rosa ao fim de 10 minutos, mas ela por mais que
olhasse só via uma grande mancha vermelha e não via riscos nenhum. É o que dá,
disse, não pensarem nas coisas, vê-se mesmo que foram homens a fazer aquilo, se
fosse uma mulher tinha desenhado um teste de gravidez que funcionasse mesmo
quando uma gaja está com o período.
A páginas tantas, a funcionária da câmara interrompeu a nossa conversa e disse à senhora que falava comigo que o seu processo ainda não estava despachado, e que seria melhor a senhora voltar daí a dois ou três meses. A senhora ficou muito preocupada, ainda perguntou se não poderia ser um bocadinho mais rápido, mas disseram-lhe que não, que as coisas não eram bem como os munícipes gostariam que fossem mas sim consoante há disponibilidade.
A páginas tantas, a funcionária da câmara interrompeu a nossa conversa e disse à senhora que falava comigo que o seu processo ainda não estava despachado, e que seria melhor a senhora voltar daí a dois ou três meses. A senhora ficou muito preocupada, ainda perguntou se não poderia ser um bocadinho mais rápido, mas disseram-lhe que não, que as coisas não eram bem como os munícipes gostariam que fossem mas sim consoante há disponibilidade.
A senhora preparava-se já para ir embora, mas
ainda consegui dizer-lhe que também não tinha tido grande sorte no teste. Primeiro,
aquilo diz que é melhor com a primeira urina da manhã, mas como de manhã estava
sempre tão mal disposta, só me apetecia vomitar, não me apetecia muito andar a
ler instruções. E aquilo é duma complicação, que só visto! É preciso acertar
com o xixi no pauzinho, e é preciso muita pontaria, e ainda por cima eu tinha
andado a engordar, nunca consegui contorcer-me o suficiente para acertar em
condições, mas enfim, ao fim de vários meses de treino, a semana passada lá
consegui acertar, mas quando ia para ver se tinha lá os tais dois risquinhos
começou-me a dar umas dores de barriga muito fortes, e tive de ir para o
hospital, e nem tive tempo de olhar.
Lá fui para o hospital, trataram-me muito
bem, deram-me uma anestesia que deixou de me doer a barriga, e nem tiveram de
me operar nem nada como fizeram a uma amiga minha quando teve o apêndice, só me
disseram para fazer força, força e eu fiz força, força, e portei-me tão bem que
me deram um bebé para levar para casa e até fiquei muito contente porque é um
bebé muito giro e encurricadinho.
Ainda eu não tinha acabado, e a senhora, que era muito simpática, deu-me muitos parabéns, pediu-me desculpa e saíu quase a correr.
Ainda eu não tinha acabado, e a senhora, que era muito simpática, deu-me muitos parabéns, pediu-me desculpa e saíu quase a correr.
Imaginei eu que tivesse pressa, mas tive pena de não lhe dizer que só ontem, quando voltei do hospital é que olhei para o teste e tinha dois risquinhos o que queria dizer que estava grávida o que é uma chatice porque diz que dá enjoos…
Já sozinha ao balcão, fui atendida e nem querem saber o que me disseram: então não é que o meu processo também não estava despachado, e que seria melhor eu voltar daí a dois ou três meses?
Fiquei toda contente; afinal, com um bocado de sorte, até pode ser que volte a encontrar a outra senhora e então acabo de lhe contar o resto da minha história!
Alma de Deus
(Em reposição: anteriormente publicado no extinto http://blog.oliveiradobairro.net/)
